O escritores: César Mateus e Maikel de Abreu


César (29) e Maikel (31) se conheceram no trabalho, em Caxias do Sul, onde moram até hoje. Os dois eram auxiliares de produção de serigrafia em 2002 e foram apresentados por amigos em comum. Depois de uma noite de bebedeira, num posto de gasolina, começaram a trocar livros e discos compulsivamente. Deram início ao blog Invernos Cegos e dez anos depois publicaram o livro Couro Ilegítimo e outros contos (editora Modelo de Nuvem), também em conjunto.



O blog: www.invernoscegos.wordpress.com



Os contos: Em Couro Ilegítimo e outros contos, o protagonista é a própria Caxias do Sul. Pano de fundo para os 23 contos, a cidade é representada por recortes da vida de personagens suburbanos. Todos eles deslocados e amargurados numa cidade industrial, que respira em ritmo frenético. Apesar do revezamento entre as narrativas dos autores, o final do livro traz um conto escrito à quatro mãos.



Dead man walking (Maikel de Abreu)


Começou a lamentar. Aos pouquinhos de um tempo pra cá. As rugas do franzir da testa, dois ou três cabelos brancos, as crises de nostalgia, a economia das palavras, a derrota que sofria dias a fio pelo sofá da sala, a aversão ao barulho e a adoração daquele silêncio, que era o mesmo tempo uma tortura.

“O que me faz morrer assim tão rapidamente?”


Sorrir já era um enorme esforço. Fingir estar feliz não era tão fácil como imaginou um dia. Sobre ele aderiu um rótulo de coisa amarga e estragada. Quem o cruzava nos corredores da garagem, ou no elevador, não tinha mais curiosidade em saber quem ele era, o que foi ou o que seria. Por vezes, ao olhar pela janela, além das duas quadras de tênis, da piscina, via no outro prédio do mesmo condomínio pessoas desfrutando da paz de seus lares com as respectivas famílias.


“Sou meu próprio cárcere e perdi a chave”


O espelho jamais foi retrato. Quando foi apaixonado perdidamente por si, dizia: Que belo retrato que sou.


Havia um rosto jovem, ao fundo azulejos brancos e brilhantes de tão limpos. Houve uma mulher e o barulho das crianças. Seus olhos pertenciam a ela, a eles.Sua morte estava ali, no fio de cabelo que descia pelo ralo da pia, na fadiga do corpo, no mofo que agora cobria os azulejos esverdeados que um dia foram brancos… A morte não acabava somente com a vida, por mais que todos os livros, médicos, sábios, santos e deuses já dissessem que ela faz parte. Enterrou épocas e memórias. E ali estava o morto em vida. Quebrou o espelho.


A mulher, as crianças, partiram pro lado de lá daqueles muros gradeados, longe daqueles portões que se abrem à distância, distante dos bips que abrem e fecham as travas das portas de carros do ano. Da vida que foi vendida naquele cartaz: um casal de meia-idade exibindo dentes brancos, junto a sorrisos de duas crianças com poucos dentes de leite, de camisas polo e raquetes de tênis nas mãos. Longe do paraíso que financiou em salgadas parcelas descontadas em folha.


Quando ela e os pequenos se foram, aquela segurança era tudo o que não queria mais. Se saísse dali, encararia a face suja da rua; se descesse do carro, pisaria no chão imundo de uma terra estranha, sem síndico, sem vigias, sem lâmpadas de acionamento automático e pessoas de simpatia duvidosa rasgando-se em sorrisos de invejar o éden. E naquele sepulcro coletivo de segurança máxima de vinte apartamentos (um por andar), jazia ele em uma banheira de água fria e turva esperando pela sentença final.



Couro ilegítimo (César Mateus)


Era a hora mais fria, um pouco antes do nascer do sol. Não havia mais ninguém na lancheria-bar-café fora o dono, que com o rosto congestionado do sono assistia passivamente à televisão. Os dois bebericavam seus cafés, o dela com leite, o dele preto e sem açúcar. Tinham quase a mesma altura, mas ele de forma alguma poderia ser considerado um nanico, algo na mamadeira dessas meninas fez com que elas crescessem tanto. Na tela a repórter informava as temperaturas, cinco graus, parecia menos, o vento entrava por baixo da porta de ferro e enregelava as canelas nuas dela. Ele usava botas por cima da calça, como as amazonas, ela usava meia-calça furada, que não ajudava em nada. Seus cabelos já tinham sido maiores, a maioria dos fios era negra como corvos, mas havia também alguns loiros e outros, em menor número e mais em baixo, eram brancos. Seu companheiro tinha cabelos ainda mais negros e volumosos, mas o corte era curto, perto da testa eles eram puxados para cima, para formar um muro, uma barreira, só dessa forma esse modelo era justificável. O rosto moreno era magro e ossudo e a pele era impecável, lisa e sem qualquer marca. Seus olhos castanhos, bem escuros, agora analisavam o rosto feminino do outro lado da mesa. Era ainda mais pálido nessa altura da madrugada, e essa brancura fora o seu principal charme no começo da carreira, hoje só deixava ainda mais claras as cicatrizes e evidenciava as marcas negras perto dos olhos. Em outra época ela usara lentes azuis, hoje se contentava com o castanho claro sem brilho e que apresentava os primeiros traços de miopia. Da maquiagem restara o batom de um vermelho desbotado. Combinava com o sobretudo também vermelho, mais escuro nas mangas, no colarinho e na mancha de vinho tinto na abertura perto dos seios. Dentro dele usava uma estranha combinação em couro ilegítimo, até acabar nas botinhas sujas com a lama do seu bairro. Ele morava mais perto, apenas concreto e asfalto e às vezes alguma poça d’água. Vestia também um blusão negro de gola rolê, jaqueta e uma manta de um verde demasiado chamativo. Não estava maquiado e batia os pés no chão para esquentá-los.


Conheciam-se há mais ou menos três meses, desde que ele conseguira o emprego. Ele não simpatizara com nenhuma das outras, um olhar frio de inveja o atacava toda vez que ele passava no meio do salão. Ela não, ela era verdadeira, sabia palavras bonitas que ele gostava de ouvir, e de outras bocas ouviu que ela chegara a entrar na faculdade. Mas isso fora antes, quando era realmente bonita, quando ganhava o que pedia, quando chamava a atenção na rua, não pelas cores, mas pelas formas. Ela gostava de olhar para ele, achava-o bonito, e sentia pena quando se lembrava que os seus destinos eram os mesmos. Ela se considerava sua irmã mais velha, e atendia a todos os seus desejos como outrora outros atenderam aos seus. Agora para ela restava o café com leite, pois ela já não tinha disposição para ficar acordada, a ele servia o café preto, porque mesmo no seu auge não acreditava em uma vida doce.