Uma maquete hiper-realista de São Paulo – assim é Sexo, o segundo livro do escritor André Sant’Anna. Ao lê-lo, uma pergunta se torna inevitável: “Como chegar ao final da leitura sem reconhecer que o realismo mais cru, para dar conta da barra pesada dos nossos tempos, deve tingir-se com os tons do absurdo mais cruel?”. Leia:



“As CAIXAS DE SOM, NO TETO DO ELEVADOR, emitiam a música de Ray Coniff. O negro, diante da porta pantográfica, fedia. A gorda, que pisava no calcanhar do negro, fedia. O negro fedia a suor. A gorda fedia a perfume Avon. O acensorista, de bigode, cochilava. O Executivo De Óculos Ray-Ban conversava com o Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas. Os dois executivos eram brancos. A Gorda Com Cheiro De Perfume Avon era branca.


O Executivo De Óculos Ray-Ban falou para o Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas:


– O hotelzinho era o the best. Não deixe de passar alguns dias na Normandia quando você for à França outra vez.


No quarto andar, a Secretária Loura, Bronzeada Pelo Sol, entrou no elevador. O Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas olhou para a bunda da Secretária Loura, Bronzeada Pelo Sol. O negro continuava fedendo. A Secretária Loura, Bronzeada pelo sol, não fedia. O Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas cutucou, com o ombro, o Executivo De Óculos Ray-Ban. O Executivo De Óculos Ray-Ban também olhou para a bunda da Secretária Loura, Bronzeada Pelo Sol.



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