O escritor: Thiago Roney


Thiago tem 27 anos e um diploma de Matemática da Universidade Federal do Amazonas. Quando não está dando aulas, ele escreve. E quando não escreve, dá aulas. Este vaivém retilínio e uniforme resultou na publicação de alguns contos nas revistas Germina – Literatura e Arte e Trevo. Além da colaboração regular que faz para a revista eletrônica Claraboia. Em 2012, somou ao seu perfil o lançamento do livro de contos O estouro da artéria de um cavalo húngaro (Editora Multifoco).



O blog: http://oestourodaarteria.blogspot.com.br/



Os contos: Os 12 contos de O estouro da artéria de um cavalo húngaro são feitos da realidade que existe na ficção. O tempo e o espaço só servem para revelar que tudo na vida não passa de um absurdo.



Afetuosos teoremas de Martín


“A sombra recolhe a edificação do prédio hoje em ruínas. Se ele estivesse aqui, agora, calcularia todos os sentimentos petrificados ainda no ar. Graças aos seus conhecimentos virtuosos sobre os ângulos hiperbólicos. Lembro quando ficava no canto esquerdo da sala de jantar, vendo números na fala da teatralidade familiar. Zombávamos de suas precisões psicológicas.


– Qual a diferença entre os números e as letras? – perguntávamos, alimentando mais o seu interesse pelo mistério dos significantes.


– Sou uma espécie de bluetooth. Uso números para captar afetividade e mensurar falsificação – concluía, soberbamente.


Conseguia ver o seu gosto pelo exagero. Quando inflamávamos mais as desconfianças de sua estranheza, ficava cristalino. Já o pai não compreendia seus gostos. Principalmente sua obsessão pelo quadro A origem do mundo, de Courbet. Com referência a este último, sempre recorria ao eterno retorno de Nietzsche ou ao buraco negro da astrofísica para teorizar a vida. Numa quarta-feira de cinzas, a mãe o pegou masturbando-se lendo A divina comédia de Dante Alighieri. Assombro geral no seio da família.


– Martín! Martín! Você e seus pecados! Vai acabar indo para o inferno! – vociferou a mãe. Mas ele era de um ceticismo gorduroso.


– Mãe… não acredito nesse edifício de perfídia que é a sala de jantar! E nessa noção de vida! – respondeu, ríspido, mas conservando certa afetuosidade.


A partir desse dia, nada voltou ao normal. Sempre que alguém se aproximava de Martín, ele falava estar ocupado. Dizia trabalhar numa pesquisa importante para a humanidade. Quando perguntávamos sobre o que, ele respondia num só alento:


– Sobre a possibilidade de um isomorfismo entre a profunda mensura da estupidez humana com a extensão infinita do universo.


Após sua fala, abraçava-nos fortemente como um leão no cio em dias de chuva. Toda vez era um único ato. Certo dia, o pai procurou estudar um pouco sobre o assunto para tentar descobrir um nexo nas palavras de Martín. Mas nada. Perguntávamos como ele calcularia essa relação.


– Através dos números transfinitos de Cantor. Como o alefh 0 e o alefh 1. E outros metatransfinitos que eu descobri – ele respondia, com um riso tímido.


A fadiga entrou em nós como doença. Apenas nos aproximávamos dele quando queríamos sentir seu abraço de leão em cio. Tempos depois, um dia antes de sua morte, surpreendentemente ele falou de outra pesquisa sobre o cálculo da profundidade inversa dos sete palmos debaixo do céu. Falando ainda da preocupação dessa longa estrada mensurada em infinidades de números transfinitos, cujo era o destino após a morte dos membros da família.


– Menos eu! – frisou Martín.


– Como bem falou mamãe. O arquiteto do calvário vai me mandar para o inferno! E sei que o inferno é a sete palmos do chão. Cálculo simples e trivial! – disse, com uma afetuosidade sádica.


Hoje, após a morte do pai e da mãe, fico ruminando quais os senos, cossenos e sentimentos hiperbólicos meu irmão enxergaria nesta sombra especializada em recolher farrapos de um prédio em ruínas.