O autor: André Timm


André Timm nasceu na madrugada de 1976, em Porto Alegre. Depois de aprender todas as regras de concordância e regência verbal no curso de Letras, foi trabalhar como redator em agências de propaganda. No intervalo entre a revisão de um rótulo de Hellmann’s e um texto publicitário da Pomarola, André arriscou o primeiro conto. Com mais alguns textos reunidos em horas-extras, publicou um deles pela editora 7 Letras, na então Revista Ficções. Em 2009 decidiu fazer um slogan pra si mesmo: Carreira literária é coisa séria! Influenciado pela própria propaganda, escreveu o seu primeiro livro de contos, o Insônia (Design Editora).



O site: http://www.andretimm.com



Os contos insones: Insônia ganhou menção honrosa no Prêmio Sesc de Literatura de 2009. Os contos de André abrem brechas e deixam rastros pela madrugada de uma cidade apinhada de prédios. Seus personagens são pessoas que vivem no mesmo lugar e que não se conhecem. Os encontros se dão furtivamente, na corda-bamba entre o sono e a vigília. Na literatura de André, as coisas não se resolvem por inteiro. “Porque é justamente no não-dito, nas entrelinhas, que o literário se dá” – André boceja. Leia o conto 903 antes de dormir:



903


Ana acorda de sobressalto com o som estridente do que imagina ser o despertador. Olha para o rádio-relógio, mudo, que marca três e meia da manhã. Por alguns instantes, sob o torpor daquele estado onde não se está mais adormecido, mas nem totalmente desperto, ela se dá conta de que o chamado parece vir do porteiro eletrônico.


Embora acordada, fica na cama, na esperança de que aquilo seja algum engano ou uma brincadeira de algum adolescente saindo de uma festa. Mas o porteiro toca novamente, o que a obriga a levantar. Respira fundo e, ao dar os primeiros passos, é como se rasgasse um véu espesso de calor e escuridão. É uma noite de verão, pesada e morna.


Caminha em direção à cozinha, sem acender as luzes, tomando o cuidado de não esbarrar em nenhum móvel ou tropeçar em algum brinquedo deixado pelo chão. Põe tanta concentração nisso que o som agudo do porteiro eletrônico, que toca mais uma vez, a pega totalmente desprevenida. A adrenalina parece trazer seu coração à boca.


Como que para contrapor o momento, agora ouve apenas o som compassado dos ponteiros do relógio na parede da sala. Parecem tentar alertá-la para que não continue: não-não, não-não, não-não. Ela os ignora. Prossegue assustada, mas resoluta. E quando mal se recupera, o porteiro eletrônico toca novamente. E por mais previsível que isso pudesse parecer, ainda assim, uma nova onda de medo percorre seu corpo.

Novamente, toma fôlego e dessa vez caminha rápida e decidida até a cozinha. Para em frente ao porteiro eletrônico, levanta a mão para atendê-lo, mas hesita. Encara-o fixamente por não mais do que dois segundos e, num movimento brusco, atende, com medo de que toque outra vez.


No pequeno monitor, as imagens começam a tomar forma. Como nos antigos televisores, elas levam alguns instantes tentando entrar em sintonia. Como se houvesse uma pequena esteira lá dentro, as imagens correm de cima para baixo para se repetirem logo em seguida. Quando se ajustam, pela pequena tela, lê-se apenas:

Ato 1.


Logo é possível perceber que estas palavras estavam impressas ou escritas em um papel colocado bem próximo à câmera do porteiro, pois a mão que o segurava se move, revelando três pessoas. Não é possível vê-las com nitidez. Para que todos estejam dentro do campo de visão, enquadrados, eles precisam estar a uma distância razoável. Ainda assim, é possível ter uma clara visão do todo.


O primeiro dos três é um homem. Usa roupas estilo Luis XV. Parece haver certa afetação em sua pose. Porém, há algo que contrasta brutalmente com essa impressão. Ele usa uma máscara de cavalo, um tipo extremamente realista.


A segunda é uma mulher. Além de uma máscara de gato, nos mesmos moldes da outra, ela também traja roupas antigas. Da cintura para cima usa um corpete que define seu corpo, uma peça com rendas e sobreposições. Da cintura para baixo, uma saia armada que vai até seus pés. Juntos, eles parecem ter saído de algum conto de fadas da Idade Média.


Há ainda a terceira pessoa, outra mulher. Esta, porém, está totalmente nua, exceto pelo rosto, que também traz uma máscara, de rato.


Cheios de pompa, os três iniciam uma reverência.


Ana mal acredita no que presencia. Está tão absorta que até mesmo esquece de sentir medo. Por um lado, sente-se segura dentro do apartamento, mas ainda assim, há uma sensação de mau presságio. Pensa em desligar e imediatamente ligar para a polícia, mas antes que o faça, é surpreendida pela continuação da atuação.


A mulher nua, que se encontra entre os outros dois, começa a ser brutalmente agredida. Não parece esboçar nenhuma reação de medo. Nem mesmo aparenta querer tentar fugir. A cada golpe desferido, mais violento e intenso, a mulher apenas esmaece, se aproximando cada vez mais do chão, ao ponto de parecer semiconsciente.


Ana sente uma dor lancinante no peito. E mesmo que sua respiração ofegante sugira o contrário, é como se o ar dentro dela se esvaísse cada vez mais rápido. É uma sensação que está além do medo. Sair dali e tentar ir até a sala, em busca do telefone, é um esforço absurdo. Suas mãos tremem de forma totalmente descontrolada. São apenas três números, mas ela demora alguns minutos até conseguir acertá-los.


Quando finalmente o faz, ouvir a voz de alguém do outro lado traz uma sensação de segurança. Ela fala rápido, sem pausas, na esperança de que ainda possam chegar a tempo. O policial responde:


— Senhora, por favor, acalme-se. Eu preciso de alguns dados. Qual o seu nome?


— Ana, ela responde.


— Qual o seu endereço?


— Otávio Dutra Leme, 2.760, apartamento 903.


— Agora, por favor, diga novamente tudo o que a senhora viu.


Rapidamente, ela conta o que lembra, procurando ser o mais detalhista possível, apesar de todas as circunstâncias. Finalmente, terminam:


— Senhora, verifique se sua porta está trancada e não abra para ninguém, exceto para o policial que irá até aí. Mandaremos uma viatura o mais rápido possível. Até lá, procure ficar calma e ligue novamente se acontecer qualquer coisa.


Ao desligar, já estava mais tranquila. Passado o pior, pensa que apesar tudo, nada havia acontecido a ela, de fato. Com a cabeça entre as mãos e com os cotovelos apoiados nas pernas, senta no sofá da sala e respira fundo. Permanece por ali por cerca de dez minutos, tentando digerir o que havia presenciado.

Novamente o interfone toca, mas dessa vez é polícia.


Após um breve interrogatório, o policial informa que haviam vasculhado todo o bairro em busca de suspeitos, mas não haviam encontrado ninguém. Dessa forma, tudo que podia ser feito era voltar para a cama e tentar esquecer aquele incidente macabro.


Sete e meia da manhã. Ana acorda exausta, em razão da noite mal dormida e de todo o resto. No rádio, a previsão do tempo indica outro dia de temperaturas quentes. Levanta para dar início à Via Crucis da mãe solteira: banho-filho-café-escola. No escritório, o dia se arrasta. Ela tem a estranha e incômoda sensação de estar sendo observada o tempo todo. Procura evitar pensar sobre o incidente, mas é difícil permanecer indiferente àquilo. Quando finalmente consegue sair do trabalho e apanhar o filho na escola, sente a angústia dar uma trégua.


Em casa, se refugia embaixo do chuveiro por tempo suficiente para que seus ombros esqueçam o que aconteceu na noite passada. Cuida do garoto, dá um jeito na casa e percebe que já são quase onze da noite.

Procura por uma jóia, um colar com pingente que havia prometido emprestar para sua irmã. Revira cada canto da casa atrás dela, mas se dá por vencida e conclui que provavelmente deve ter esquecido na casa de sua mãe.


Exausta, resolve ver um pouco de tevê e termina adormecendo no sofá.


Ana corre em círculos atrás de pessoas que têm o rosto virado para trás. Por mais rápido que vá, nunca consegue tocá-las. Elas têm um sorriso amarelo e os olhos profundos. Há um som estridente, familiar, que começa a se tornar cada vez mais intenso, até lhe arrancar completamente do sonho. Abre os olhos e levanta de um pulo. A campainha do interfone toca de forma intermitente.


Olha para o relógio na parede e percebe que são duas da manhã. Não, não podia estar acontecendo novamente, ela pensou. Vai até a cozinha. Olhos vidrados no porteiro e mãos trêmulas como ontem. Atende.

Ato 2


Pensa que a mensagem no vídeo indica que o que estava por vir agora é uma continuação daquilo que vira ontem. Dessa vez, só duas pessoas aparecem. Os mesmos que haviam espancado a mulher. Como na noite anterior, inclinam-se em reverência, o que faz com que seu coração antecipe o que irá presenciar em breve.

O homem sai do enquadramento por alguns instantes e reaparece, carregando uma pequena mesa de centro, de formato retangular. E imediatamente, dois homens enormes, trajados como carrascos, surgem. Usam capuz negro pontiagudo e têm o peito largo e nu.


Trazem o que, pelo tamanho, parece ser uma criança por volta de dez anos, também com a cabeça coberta. Sem oferecer qualquer resistência, o menino é deitado na mesa que o homem havia acabado de trazer.


Ana começa a chorar.


Nesse momento, a mulher interpõe-se em frente à cena, de modo que não é possível ver o que acontece na mesa. Ela se aproxima da câmera do porteiro, revelando alguns detalhes.


Usa o que parece ser o mesmo vestido da noite anterior. De perto, é possível perceber seus seios acomodados em um generoso decote. Algo repousa entre eles. Um pequeno detalhe que reluz e chama a atenção de Ana, tirando-a daquele estado de catalepsia em que o medo a havia colocado. Uma jóia. A jóia dela! A mesma pela qual, horas atrás, ela procurava.


Uma intensa sensação de terror percorre seu corpo. Não consegue se mover, pensar ou mesmo gritar. Estava paralisada de medo. Não era mais uma encenação, que apesar de doentia, até então se mostrava inofensiva. Eles haviam entrado na sua casa. E sendo assim, provavelmente, poderiam entrar a hora que quisessem.


Ela fita imóvel o pequeno monitor do porteiro e vê a mulher sair da frente da câmera, revelando o menino sobre a mesa. Ao seu lado, há um veludo negro estendido com inúmeras ferramentas e aparatos cirúrgicos. As imagens do porteiro eletrônico, além de serem em preto-e-branco, são imprecisas, sem muita nitidez.


Mas ao olhar para o garoto, agora com o rosto descoberto, sente suas pernas a traírem e o coração prestes a desistir. Parece seu filho. Desesperadamente e se arrastando por entre os móveis, ela se joga em direção ao quarto do garoto. Para seu alívio, ele está ali. Ela o toca, o acorda. É ele. Abraça-o com força e tem medo de soltá-lo. Quando finalmente consegue, toma coragem de voltar à cozinha para encontrar apenas outra mensagem estampada na tela: Penitência, sacrifício, replicação.


A luz apaga repentinamente. Ouve o som da fechadura da porta da sala. Tenta correr, mas, no breu, sente apenas a agarrarem pelas costas. Tenta, em vão, se desvencilhar, mas logo sente algo úmido sufocar seu rosto. Debate-se, porém percebe nitidamente seus movimentos cada vez menos intensos, seus pensamentos cada vez mais turvos. Tudo apenas esvanece.


Sente uma brisa tocar seu corpo. Ainda está escuro. Gradualmente, ela começa a ouvir os sons ao seu redor. Aos poucos, retoma a consciência e tenta entender o que aconteceu. Toca-se. Está nua. Mas a sensação refrescante que sente em seu corpo não chega até o rosto. Sente-o abafado. Leva a mão até a cabeça e percebe que usa uma máscara.


Abre os olhos.


Demora um pouco até que consiga encaixar a sua visão com as duas aberturas. Está na rua. É noite e tudo está deserto. Silêncio. Olha para os lados e vê o homem com cabeça de cavalo e a mulher. Estranhamente, embora saiba que seria o mais sensato a fazer, não tem a mínima intenção de tentar escapar. Apenas fica.


Está parada entre eles. Estão na frente de um edifício que lhe parece familiar, mas não pode afirmar que seja o seu. Uma criança, que ela pensa ser seu filho, toca o porteiro eletrônico e segura um papel em frente à câmera. Lentamente, os três descem em reverência.


Ela sente o primeiro golpe. Um estampido seco e pesado. Suas costelas se partem, perfurando o pulmão. Vem o segundo, o terceiro. A cada investida, sente como se cada órgão se deslocasse dentro dela. Sente a pele descolar da carne e a carne descolar dos ossos.


Sente que está cada vez mais próxima do chão.


Amanhece. O carteiro toca o interfone no 903. Ninguém atende.