O autor: Diego Moraes


As cartas que Diego mandava para o programa Porta da Esperança, quando criança, nunca foram respondidas. E quando fez 17 anos, as declarações que escrevia para a namorada também pararam de passar por debaixo da porta. Trocado por Graciliano Ramos, jurou num bar do centro de Manaus que publicaria um livro com todas as palavras engasgadas. Demitido do emprego de maqueiro da UTI, fez 60 contos em um ano. E 33 deles estouraram em A Fotografia Do Meu Antigo Amor Dançando Tango (Bartlebee Editora). Os amigos do bar agora o veem como o novo Rimbaud. Aos 30 anos, Diego tem um séquito de puxa-sacos na região norte do país e um novo livro de poemas chamado A Solidão É Um Deus Bêbado Dando Ré Num Trator.



O blog: http://ursocongelado.tumblr.com/



Os diálogos ferinos e os versos escarrados: Os 33 contos de A Fotografia Do Meu Antigo Amor Dançando Tango são feitos de diálogos breves e enlouquecidos. As interrupções abruptas – chamadas de “estética do coito interrompido” por Tadeu Sarmento – compõem uma sequência de narrativas meio Sessão da Tarde, meio literatura junkie. Em seu livro de poemas, A Solidão É Um Deus Bêbado Dando Ré Num Trator, os versos são cusparadas de sangue que sujam as páginas. Curtos e certeiros, parecem flechas envenenadas ou clipes que atravessam a pasmaceira de um domingão – como diria Astier Basílio. Abaixo, leia um conto e um punhado de versos:



Anais Nin no Butantã


Frederico
Só tive noção do fracasso quando estourei o nariz cheirando pó e na seqüência tocou Oasis.
Disse olhando pro hipopótamo entregue às moscas.


Dário
Quer que bata palmas?


Frederico
Só quero voltar a escrever coisas lindas como aço despedaçando nas manhãs de sábado.


Acende um Marlboro.


Dário
Adoro esse zoológico Fred. O cheiro do senso de humor das crianças e estripulias dos macacos. O que vieste fazer aqui no meu paraíso?


Frederico
Você tirou


Frederico
Você tirou a única coisa que eu tinha.


Dário
Vai dizer que roubei tua poesia?


Frederico
Você roubou a Ana.


Dário
Respeita minha mulher seu filho da puta drogado do caralho!


Zumbidos amarelados. Socos desfocando para o chafariz do bicho morto. Silêncio de abatedouro sem patas. Fred rindo até vomitar a bílis.


Dário
Não volta mais aqui! Não volta mais!


Sete crianças vidradas embaixo da arvore com a inscrição de É proibido Perturbar os Pássaros.


Frederico
Não vai ficar assim… Não vai ficar assim…


Cospe dois dentes. Entra no carro e acelera rumo à rodovia dos imigrantes. Vai engolindo o choro e assobiando nas curvas até um veado cruzar seu caminho. Perde o controle do Monza prata precipitando-se no abismo.


Anais Nin em P & B jogando maçãs para as serpentes.


Schopenhauer fumando oxi embaixo do viaduto da Avenida
[Djalma Batista
Brisa escrevendo belíssimos romances que jamais serão lidos
O sol sempre baixa dentro do abismo.


Deus manda tsunamis como minha mãe joga farelos de pão no
[Rio Amazonas
Faz pequenos redemoinhos azuis no meio da confusão
Se eu fosse cineasta, pediria para ela lagrimar e falar bobagens
[de mansinho.
A gente pensa que não, mas os peixes entendem.



Manuela de maiô amarelo dando braçadas no Rio Negro
Barco ancorado no cais onde turistas bebem amores na noite da
[memória
Fiz um pacto com o diabo para nunca morrer no domingo.