A autora: Juliana Amato


Juliana já viveu o bastante para não lembrar quando começou a escrever. Juntando ¼ de século vivido em São Paulo, tem apenas uma memória ingrata e um livro publicado. Esqueceu-se das leituras sérias. Pode até ter lido A Odisséia, mas só guardou imagens das histórias em quadrinhos e desenhos da tevê. “Acho que comecei a escrever quando aprendi a falar, e escrevia falando”. Aos 15 aparecia nas reuniões do Café Literário, debaixo do guarda-chuvão da Benedito Calixto. Os saraus davam mais sono do que tentar ler A Odisseia. Ao começar Letras na Usp, teve insônia. Suas madrugadas intermináveis deram em publicações na revista carioca Minotauro, na Modo de Usar e Psicanalítica. Ano passado ganhou os louros do concurso de poesia Iara e participou da exposição coletiva Asfalto. O seu primeiro livro, Brevida (edith) foi o pistolão do concurso só escritoras. Lançado durante a Balada Literária, muita gente se aproximou para ver aquela mistura de Ulisses, Turma da Mônica e Walt Disney.



O blog: http://julianamato.blogspot.com (O microclima dela)


O site: http://diarioaleatorio.co/ (Escritos de Juliana + fotos de Tany Sanchez = Diário Aleatório. P.S.: Uma coleção de dias estranhos)



Os frames poéticos: Engavetado há dois anos, Juliana tinha um único destino para os manuscritos: costurá-los à mão, aos domingos, em apenas uma edição artesanal. Em tempo ganhou o concurso só escritoras, realizado pela editora edith. Centenas de edições estamparam as imagens de curtíssima duração dos seus versos. Vieram ao mundo personagens que não disfarçam o absurdo em que vivem. Eles e os seus diálogos infâmes. Como numa série de frames poéticos e hipnóticos, Brevida corre de um quadro a outro, até que o leitor se largue na poltrona e se renda. Como em um filme de Godard. Veja:



CRIANÇO – POEMA ORAL


“[…] Mamã corria, Crianço dormia. Musculoso.


Um dia pensou que ia explodir, foi nada não, menino saúde de ferro come sopa de pimenta. Só ficou maior e mais burro e mais faminto que rinocerontes. De modo que as meninas do povoado já tinham esgotado e não havia como arrumar mais ou ir de novo. Crianço já não sabia pegar-mulher. Sem jeitão. Mamã então levava porcas, cabritas, vacas e girafas, leoas pra satisfazer o rebento e não adiantava, Crianço gostava de carne humana, o doutor disse que era isso, mesmo Crianço não querendo falar muito.


Só sobrou pra Crianço chupar cachimbo, ele não deu certo não. De mongol em mongol explodia, mamã já era pele e osso e pensava que Crianço era o próprio capeta.


Mamã mandou ele. Aos 28 pro orfanato.”



MAMÃE BISCATE


“Nascida Abrantes Souza, Nagib depois de casada, Mamãe Biscate era caso à parte. Garrafinha long neck no bucho, cantil de cachaça na bota. Cartão do maridão na bolsa. Boca de microfone, chupeteava à torto, direto. Unhas compridas, vermelhas, raspando de leve o saco alheio, depois na boquinha, ladesquerdo, mordendinho.


Meiidade, mamãe biscate velha safada, safada!


Mamãe Biscate batia ponto nas colunas sociais. Num mês mostra o aparelho de jantar de prata, no outro a mansão na praia, noutro sua solidariedade com os menos favorecidos doando cachê pra uma campanha qualquer contra qualquera. Importante era estar, Mamãe Biscate sabia bem, e estava. […]”



AMOR DE MÃE


Assistente Social – e na casa nova, como você quer que seja?


Crianço – que tenha janelas.


Assistente Social – claro que terá janelas, dã. Que mais você quer?


Crianço – que a nova mãe seja loira e tenha belas tetas.


Assistente Social – Crianço, ela será sua mãe.


Crianço – .


Crianço – então não quer.


Assistente Social – você nunca entende nada, Crianço?


Crianço – o quê? Não vou mamare? Vai ser que nem nascer de novo.


Assistente Social – não. Você já nasceu faz tempo. Você já é velho.


Crianço – casa comigo! seje minha mãe!



AMOR DEMAIS


Para finalizar esse encontro gostoso com Solange Nagib, um ping-pong. Está preparada, Solange?

Sempre, né, gente?


Ótimo, vamos lá. Uma música:


“Eu só quero amar”, do Tim Maia. Reflete minha personalidade.


Um lugar:


Aqui e agora!


Um filme:


Uma linda mulher. Ainda choro quando assisto. Risos!


Um livro:


Ai… não lembro o nome… mas é sobre a vida na cadeia… é de um queridíssimo amigo meu, talentosíssimo. Lição de vida. Mas já adianto para vocês, em primeiramão, que ano que vem tô lançando meu livro, que vai chamar A chama da vida.


Um esporte:


Hm… Sexo! risos histéricos!


Rio ou São Paulo?


Vivo em São Paulo. Mas o Rio é a minha cidade do coração.


Uma comida:


Quem resiste a uma bela feijoada? Risinhos.


Se fosse um animal…


Leoa.


Uma inspiração:


Dona Diva, minha mãe.


Não vive sem…


Drenagem linfática!


Uma palavra:


Amor. Coloca todas as letras maiúsculas na revista, tá?


Uma raiva:


Não tenho raivas. Sou uma mulher bem resolvida.


Um medo:


… Envelhecer… morrer… adoecer… ai sei lá, gente…


Um desejo:


A paz mundial.


Uma saudade:


Minha Amanda quando pequena… ah, pode ser duas saudades?


Uma frase ou uma palavra:


Viva cada dia como se fosse o último!


Solange Nagib por Solange Nagib:


Ah, gente. Amor, muito amor.