Foram anunciados os 63 semifinalistas do Prêmio Portugal Telecom de Literatura. E com eles, na categoria romance, estão dois escritores que já tomaram espressos com suas pilhas de livros no Isto não é um cachimbo – Perfis Literários. São eles: O céu dos suicidas, de Ricardo Lísias e Era meu esse rosto, de Marcia Tiburi. Nossa reza em favor dos autores vai em fragmentos:



Trecho de O céu dos suicidas, de Ricardo Lísias


Nunca tinha gritado tanto. trato meus problemas em silêncio. Eu os organizo e reorganizo na cabeça, como se fossem uma coleção, até solucioná-los. Com as decisões, reajo da mesma forma. Um bom exemplo é a tal festinha de despedida. Claro que não consegui terminar o ensino médio como tinha planejado.


Levei dez tampinhas. Tomei cuidado para, antes, passar um pano em casa uma. Estava um pouco apreensivo com as japonesas: caso chamassem mais atenção que as outras, a minha dificuldade para explicar se eram de água ou refrigerante talvez diminuísse o charme diante das meninas. Sem dizer que, naquele ambiente, seria desanimador destacar que as tinha ganhado de um abstêmio.


Resolvi que iria começar mostrando as três tampinhas da antiga Polka, uma cerveja produzida a partir dos anos 1940 no sul do Brasil por um descendente de alemães. No final, até onde tinha pesquisado, ela acabou deixando de ser uma marca artesanal para se incorporar a um grande grupo.


Eu acrescentaria na festa que em vários lugares do mundo a indústria internacional de bebidas acabou soterrando pequenos e tradicionais empreendimentos, com o óbvio prejuízo no sabor. Se concluísse a história toda com o fato de que o dono da Polka criou uma espécie de festival da cerveja, com certeza conquistaria alguém.


Leia o perfil de Ricardo Lísias, aqui.



Trecho de Era meu esse rosto, de Marcia Tiburi


Tenho vergonha de dizer, mas eu gostava mesmo era da morte. Percebo cedo, logo que acordo para o mundo, que outros dele cedem. Chego na casa do vizinho com a cortina de veludo negro e cordões dourados à porta, tenho menos de quatro anos e ninguém sabe que quero ver o caixão onde deitaram o homem que ontem mesmo passou caminhando diante de nossa casa. Aproximo-me devagar, ninguêm me olha, ponho-me na ponta dos pés ainda insuficientes para o ângulo que busco. Pompa de flores e velas, véus e rendas escondem-me o morto. Saio frustrado com a parca visão que alcanço.


Pouco tempo depois, é Quarta-Feira de Cinzas e estou na casa de uma velha morta, penso que o carnaval precede a morte, e que por sorte são os velhos que se vão e que as crianças são a exceção à regra. Dias depois, é Páscoa na casa de outra mulher deitada sobre uma mesa baixa para a qual tenho medo de olhar. Posso alcançá-la com minha mãos caso queira, mas não se toca no morto dos outros. Sinto pena como das galinhas que deixaram mortas na cozinha. E que não puderam se defender.


Deixam as velhas mulheres pobres com os cabelos soltos, desfiados como de um saco de algodão por alvejar. Tenho pena e medo. A boca semiaberta, um único dente à mostra, a língua na cavidade escura como um monstro ameaçando saltar para fora da cova onde habitam todas as metafísicas apavorantes, as mãos secas como folhas no inverno são manchadas de roxo como um dia serão as de meu avô. Como um dia serão as de minha tia.


Meço a beleza em dobras, penso que a morte é um arranjo entre o liso e o drapeado. Sonho no meio da noite com covas abertas, caveiras desdentadas, acordo com um tremor no corpo, a espinha enregelada, um atrito em meus olhos como mandíbulas no frio define que na vida tudo é sempre tarde demais. E as noites são frias como os dias mesmo quando no verão ninguém me chama para casa. Chamo meu irmão querendo saber se está acordado, ele não responde, digo o nome de minhas irmãs temendo não ouvir nada. Não ouço se me dizem algo, pois que, como eu, têm medo do que se esconde no escuro. A resposta sobre si mesmo que se tornará inevitável daqui a bem pouco. Só meu avô ri, com olhos fixos em si mesmos, me diz.


Morri.


Leia o perfil de Márcia Tiburi, aqui.



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