O autor: Leo Gonçalves


No dia em que deixou Belo Horizonte e veio para São Paulo, Leonardo Santos Francelino Gonçalves decidiu que viveria, de um jeito ou de outro, da literatura. Graduado em francês e português na UFMG, passou a assinar traduções com um pseudônimo. Se Tristão Tzara era conhecido por Tristan Tzara e Paulo Verlaine se dava ao luxo de usar apenas Paul – por que raios Leornado não seria Leo? Além das traduções, seu nome artístico começou a ser chamado para criar letras de música e resenhar em revistas e jornais. Com dois livros de poesia para autografar – das infimidades (in vento) e WTC BABEL S. A (Barbárie) – comprovou: Leo era ideal. Seu nome ficou habitué nas performances de poesia. Hoje, por exemplo, ele vai fazer uma ponta no lançamento do Frederico Barbosa, na Casa das Rosas. Leo não vai ocupar o palco inteiro, como fez no próprio espetáculo, o Poemacumba. Mas quando ele pegar o microfone, observe, o público vai reconhecer de primeira. Vá .



O site: http://salamalandro.redezero.org/



Os versos flutuantes: Nada é mais sutil e aerado que os versos de Use o assento para flutuar (Editora Patuá), o último livro do escritor. As palavras batucam de leve e o ritmo inspira-expira. As imagens dos poemas simulam a tragédia cotidiana que é viver. E permitem um risinho safo, olhada de dentro do mesmo avião, prestes a despressurizar. Agora, por favor, prenda a respiração e solte ao final de cada estrofe:



AEROPLANOS


planos para o próximo ano

aeroplanos

se a cabine despressurizar

carabinas como estas apontarão para a

sua cara

não há saídas de emergência

fasten seat belt

use o assento para flutuar

para o próximo ano

aeroplanos



ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA


fazer poemas como edifícios

por onde ninguém suba

o leitor pare à porta e cisme

andar por todos os andares

cômodos apartamentos brancos

paredes comodamente brancas

de todos os cômodos brancos

de todos os andares

e incômodo

súbito suba a si assíduo

a tudo ou quase tudo na brancura

apartado no apartamento

imóvel se anuncia

delira se especula oscila

eis que logo

livro das mudanças

a vaga vira viagem

o plano vira piloto

branco de improviso

o poema se aperta

vira vaga de vento voo

se desmancha noir

poema que de difícil

surge ofídio, físsil

na muda: poema-edifício

e apagada na mesma brancura

a palavra ascensor

é engolida pelo autor

cifrões alados são jogados

em doce desperdício

ouve-se um cântico de cura

e um grito de loucura

é lançado pelo maldito

que insiste em falar de amor



nossos beijos costurados sobre a camiseta

tão inquietos os beijinhos

que caminham rebeldes pela pele

e se agarram como manchas no pescoço


eu brinco a beça com a sua cabeça

tem piolhos tem caprichos muitos grilos

pelos loiros coloridos

eu colo no seu colo a minha boca

e você se perde


porque agora tem um mar de cheiros

o amargo mar de onde arde o nardo

e cresce entre as pernas da menina

com meu ramo mirrado e uma rosa uma rosa

uma rosa sob a minha mira


sei os beijos na palma da mão

e palmas para o movimento gostoso

da palmeira no vento e sua palma

magrinha como o visgo do dendê


os beijos sobre os beijos pela pele

derramam bálsamos a cântaros

e perfumam qual o cedro o seu ciúme

a casa não tem varanda a que se preste

a sacanagem santa desses nossos beijos


que correm cosidos pela camiseta

tão inquietos os beijinhos

passeando rebeldes pela pele

& te adornando no pescoço nas orelhas