A poeta: Mar Becker


Mar Becker começou a escrever aos 13 e não contou nem mesmo à irmã gêmea. Não saberia como explicar os enjoos e a perda de peso. Se escondia para criar sonetos nas últimas páginas do caderno da escola. As olheiras iam fundas e o frio endurecia em Passo Fundo. Até que um dia a irmã descobriu os escritos de Mar: “Se quero ser algo na vida é me tornar linguagem”. “Em alguns casos acontece”, a autora se defendeu. Para provar, mostrou os livros de Augusto dos Anjos e Cruz e Souza que carregava na mochila. A essa altura, com o corpo minguado, fino como uma agulha, a linguagem já havia ganhando peso e formas incontroláveis.



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Os versos corpóreos: “O poema se constitui de violência e fome” – Mar Becker fala da mesma maneira que escreve. Veja:


[SOU UMA URNA…]


sou uma urna crematória.


queimo teu nome,
aquática.


hidra.


sou o desaguadouro desta espiral de mortos que te antecede. redemoinho. digo que no alto de meu pensamento há uma hóstia: a lâmina de um minicrânio lunar, liso,


de teus antivocalises de mármore.


sou uma hidra de nove línguas, e em cada uma dessas línguas estão as miniluas-palavras que tu não sabes dizer. os nomes de teus mortos,


intactos.


teus antepassados.


fluir de espelhos que se ilumina e se turva
em minha saliva.


nas bocas das centenas de mortos
que beijo


através de tua boca.



GRIMORIUM – I


abcesso: abismo. vozes em tempo de insubstância azul. a orquídea sobe pela madrugada como um hino de varizes. o horário adoece. salém deflagra o horizonte cármico de seus vestidos. estou entre elas, como você deve supor. as mulheres sabem o nome umas das outras, misteriosamente: mesmo as que nunca se viram na vida. estou entre elas. presto-me ao papel de acústica das fomes do martelo. pernas. bruxas enforcadas. minhas varizes grossas como cordas.



GRIMORIUM – III


1


imita regan macneill. aracnídea, o sobe-e-desce das escadas que dão para os dormitórios. (a mãe se deitou há pouco.) dizem que tudo é possível nos domínios de suas antevisões e sua coluna versátil.


2


sozinha, na sala. fuma. ela mesma costuma enrolar os cigarros, mas não em seda ou papel comum: nas bulas do medicamento com o qual a mãe tentou aborto. uma aranha cabalística cruza a parede à sua frente. o poema se cobre de pelos, póstumo. maria, me chamas quando for a hora?


maria, mãe de ninguém.



[QUANDO MORREM…]


quando morrem,


as mães deixam um enxame de bocas no mundo: um vulto de milhões de vozes que orbitam e sonham em torno dos corpos das filhas.


à noite,
como se cantassem.


são bocas que lembram halos de sétimo dia ou fendas em fumaça de incenso.


[santo, santo, santo,
rastilho pubiano, um pântano de pernas
de filhas


no corredor da missa.]

“porque este é meu corpo e este é meu sangue”.


durante o inverno as bocas-restos crescem, tomam um princípio de vingança e furam os corpos das filhas com a ponta de suas línguas.


entre as pernas.