@damnedtripper

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“O peso sólido da umidade: em 1770, o Marquês do Lavradio afirmou que a preguiça dos habitantes do Rio de Janeiro era sumamente extraordinária.



O ar gordo e pesado tira o ânimo da voz, que rasteja, lenta, baixa, quase um sussurro. Os cariocas economizam palavras: não dizem bom dia no elevador, nem quando entram no ônibus, não pedem licença para passar entre duas pessoas, nem desculpas quando esbarram em alguém, raramente dizem por favor ou obrigado. Assim que voltei, vinda de país onde as palavras constroem as coisas e definem as relações, achei que eram todos mal-educados. Depois entendi: os cariocas falam com o corpo. Com o corpo que esbarra, desliza, atravessa, encosta no outro. Os cariocas pedem licença, dizem bom dia, desculpas ou obrigada com o corpo mole, flexível, com a carne e os pelos que se esfregam sem pudor ou nojo, os abraços no primeiro encontro, ainda que suados, grudentos.
Hoje, comparando um lugar ao outro, eu diria: a verdade nem sempre está nas palavras, mas o corpo nunca mente.



Acordo sobressaltada, o vazio ao lado da cama. Difícil escolha: o ar ou a mão?



Teoria para a alegria carioca II: a tristeza sai pelos poros.



Etimologicamente, melancolia significa bílis negra. Um mau humor, um humor mau, umidade negra transbordando no corpo. Ao contrário dos outros três humores recenseados por Hipócrates – bílis amarela, fleuma e sangue – a bílis negra não existe, é apenas uma ficção.”



Filete extraído do conto O Rio sua, de Tatiana Salem Levy, publicado na antologia Granta – Os melhores jovens escritores brasileiros.



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