O poeta: Sandrio Cândido


“Eu devia ter uns 14 anos” – Sandrio, que está sentado na sala 14 do curso de Filosofia, no Instituto Missões Consolata de Curitiba, também está no seu próprio flash back. No interior de Minas Gerais, sem computador, celular e utensílios domésticos, Sandrio devia ter uns 14 anos quando escreveu os primeiros textos. Havia passado por fortes crises de epilepsia. O médico de Minas Novas não tinha recursos. Recomendou panos umedecidos com camomila sobre o peito. Escrever durante as aplicações comprimia a espera e dilatava o tempo, descobriu. E logo deixou os chás e as compressas perfumadas para se tratar em São Paulo. Durante as consultas, escreveu poemas para inventar uma cura. Alguns deles foram publicados na revista Zunái, Diversos Afins e Mallarmargens.



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O versos convulsos: “Há algo de convulsão na lida com as palavras” – Sandrio passou a sentir tremores no corpo quando escreve. “Como se cavalos galopassem no seu peito”. Ainda assim, ele não usa remédios. Apenas homeopatia:



Infância


há canções mortas grudadas no corpo
domingo nunca mais.


as roupas sujas de barro
araras, andorinhas, canários
fios elétricos cantando na solidão.


as aroeiras cresceram na ausência
seus galhos tortos ferindo os abraços.


as grotas invadindo o amor,
estranha saudade costurando a existência
os arames farpados esticados na linguagem.
mangas maduras esperando serem colhidas
mas outro é o alimento dos olhos.


aconteço dentro do suicídio cotidiano
os cadáveres gritam por dentro da angústia
estou por ser engolido pela fome.



a menina de azul mastiga os espelhos fraturados


regresso aos domingos
nenhuma casa para o descanso
xícaras podres exalam infância
habitam-me cozinhas vazias
córregos soterrando o nada
o mundo desfigurado.
A noite alça minhas âncoras
preservo as crianças interiores
essa espécie em extinção
de alguma forma
quando desce ao meu corpo
a menina de azul salva-me
mastiga os espelhos fraturados.
Descalço as sandálias
sagrado é entrar no coração
o amor
apascentar os pássaros
emergir nos corpos simbióticos
entrelaçar-se aos dedos de Deus.



Passagem


costuro a carne com os grãos de sal,
a estrela sacrificada arde no sangue.
esperança alguma me busca.


digo o nome de deus
os braços enlaçados não absorvem a morte.


as mãos desfiam abismos
o mormaço dos crepúsculos perdidos.


tudo é faca
inútil dedilhar poentes
compor manhãs com os retratos desfigurados,


amanhecer é acordar dentro da alma.


estou rasgando o meu corpo
frágil tecido é a vida.
acumulei poeira de tantos caminhos
minha boca faminta sonhou o orvalho


nenhuma água pode lavar a água da alma.


dezembro apodreceu as ramas do pensamento
errei a estrada
mas ainda estou me habitando
aurora me chama ao seu colo umedecido.