A cronista: Roberta Simoni de Souza


Aos dez anos de idade, Roberta estava atônita diante do seu presente de aniversário: um relógio. Na crista dos anos noventa, não foi difícil observar o que as pessoas de Cabo Frio faziam com aquelas pulseiras de plástico, além de combiná-las a roupa do dia. Resignada, aprendeu a colocar as atividades do dia dentro de horários específicos. Uma hora de tevê, três horas para dever de casa, trinta minutos para o lanche. Uma lógica besta, mas adulta. O equivalente a desmontar o castelo de lego para guardar na caixa. Ao completar 15, ficou transtornada: um diário. Escondeu o relógio, as pulseiras trocáveis e as camisetas multicoloridas no gavetão do armário. Uma atitude impulsiva, mas sábia. Não fosse assim, jamais teria preenchido as páginas do caderninho. Também não haveria começado a escrever crônicas. Nem as teria colocado dentro de um blog. E muito menos sonharia com a chance de publicá-las em um livro, que está por vir.



O blog: Janela de cima



As crônicas viáveis: Diariamente pressionadas pelo horário do banco, pelo sino da igreja e pela novela das oito, as crônicas do Janela de cima driblam as marcações do tempo. Roberta faz textos como balõezinhos durante o show de intervalo, entre o primeiro e o segundo tempo. A autora também foi titular da coletânea história íntima da leitura (editora vagamundo), que reúne um novo time de escritores. E agora está em concentração para a publicação do primeiro livro. Leia:



Encosto de Saramago


Eu, que já acordei tantas vezes com encosto de Beauvoir, Cortázar, Lispector, entre outros, dessa vez despertei com frases prontas do Saramago na cabeça e, depois de um longo e tenebroso verão, sem a interferência dos raios de sol, voltei a usar meus olhos para enxergar, de fato, os fatos.


“Olhar, ver e reparar são maneiras distintas de usar o órgão da vista. Só o reparar, no entanto, pode chegar a ser visão plena.” (José Saramago)


Reparei, então, que mesmo mergulhada no meu pessimismo mais profundo e genuíno, ainda alimento esperanças absurdamente inconvenientes que me impulsionam a buscar um pouco de fôlego na superfície para, só então, com os pulmões cheios de qualquer coisa parecida com vida, voltar a nadar na realidade dos dias.


“Há esperanças que é loucura ter. Pois eu digo-te que se não fossem essas já eu teria desistido da vida.” (José Saramago)



Dois pra lá, dois pra cá


“Eu nunca mais vou amar de novo” tem o mesmo efeito que “eu nunca mais vou beber”. A gente bebe e fica de ressaca da mesma forma que ama e quebra a cara outra vez, arrependido por ter quebrado a cara e a promessa feita da última vez, sob os efeitos causados por ambas as drogas.


Eu fui ao inferno e voltei. Encontrei Euridice de Orfeu no Mundo dos Mortos e não consegui trazê-la de volta à vida. Eu não consegui. Juro que tentei, mas eu não fui capaz. Nem mesmo eu voltei completamente viva de lá. Bem na verdade, eu voltei para o lado de cá enfrentando ainda todos os demônios que me seguiram até aqui. E o que eu aprendi com eles foi que o único lado bom da batalha contra a dor é perceber-se vivo, meio capenga das pernas, mas dançando conforme a música. Dois pra lá. Dois pra cá.


A gente passa cada coisa nessa vida, viu? Se contar, ninguém acredita. É por isso que ninguém conta e a gente vem pra cá desavisado e vai vivendo como pode, como consegue ou, como diria Dona Norma: “como Deus quer“. Dois pra lá. Dois pra cá. Empurra com a barriga daqui, chuta um balde ou outro dali, chora feito bezerro desmamado numa hora, na outra gargalha feito hiena. Num dia tá bem, no outro tá na merda total. Mas é sempre a dor que nos faz lembrar que estamos vivos, seja lá como for, mas estamos. Ainda estamos.


O trem está passando e eu estou sentada no banco da estação vendo-o partir sem conseguir mover minhas pernas. Aquele ali era o meu trem e eu acabei de perdê-lo. Já é o terceiro que eu perco hoje. “No próximo embarco”, é o que eu sempre penso quando tento sair do lugar, convencendo minhas pernas desobedientes a colaborarem. Levanto finalmente e começo não a andar, mas a dançar a música que está tocando na estação central do meu cérebro. Dois pra lá. Dois pra cá. Pouco me importa o que vão pensar. Foi esse o jeito que, por ora, eu arrumei de caminhar.


Entro no trem. Um moço aparece e me tira para dançar. Digo que não sei dançar e ele responde: “É fácil, é só você me acompanhar!”. Tento, mas, lá pelo décimo pisão no pé do rapaz, desisto. “Desculpa. Essa dança não é para mim, de qualquer forma, obrigada por ter feito parecer que era fácil, eu quase acreditei!”. Ele ruma ao próximo vagão, certamente em busca de uma dançarina mais eficiente. E eu sigo viagem no mesmo vagão, no mesmo ritmo, fazendo a mesma “dancinha da sobrevivência”. Dois pra lá. Dois pra cá. Sem parceiro para me conduzir, sem ter os pés e a leveza das bailarinas, sem o gingado e o rebolado das passistas das escolas de samba e sem a coordenação motora natural a qualquer ser humano. Menos eu, é claro.


Mas, persisto. Esse é o meu maior e melhor defeito. Eu persisto.


Dois pra lá. Dois pra cá.



Durmam seus trombadinhas


Tentei colocá-los para dormir mais cedo. Vesti todos com pijamas de algodão com estampa de bolinhas. Acomodei-os em travesseiros fofinhos. Fronhas e lençóis limpinhos. Cheiro de lavanda, tecido florido. Janelas e cortinas fechadas. Luz apagada e…


Um deles levantou-se invocado e disse: não gosto de bolinhas! O outro: prefiro listras. O outro: tem uma camisola? Na outra extremidade da cama, um anunciou: vou dormir pelado! Pro cacete vocês todos. Durmam como quiserem, desde que durmam!


Por fim, eles todos: tem café?


Brigaram por espaço na cama, se acotovelaram, fizeram guerra de travesseiro, treparam feito loucos. Discutiram, duelaram e se amaram. Fumaram meu último cigarro. Quebraram minha única taça de vinho. Beberam todas as minhas garrafas d’água no gargalo. Abriram o Chandon que eu estava guardando. Esvaziaram minha dispensa. Escancararam a janela do meu quarto. Puxaram minha coberta. Deixaram meus pés de fora…


Espalharam livros pela minha cama e não me deixaram ler nenhum. Nem escrever. Falaram a noite inteira. Me desconcentraram, distraíram e dispersaram. Julgaram, ofenderam e divertiram. Riram alto. Gritaram no travesseiro. Morderam fronha. Puxaram meu cabelo. Fizeram cafuné. Não tiraram um cochilo. Viram o dia amanhecer comigo. Me esvaziaram e depois dormiram feito anjos.


Meus pensamentos ocuparam, outra vez, o lugar que é seu na minha cama.