pedras portuguesas

“Tudo começou com brincaderia. Ao longo de um quarteirão, só podíamos pisar no preto ou no branco da calçada portuguesa, nossos corpos a desenhar movimentos ziguezagueantes. Quem pisasse na cor proibida tinha que voltar cinco passos para trás. Meu pai nos acompanhava, sorrindo, enquanto minha mãe, a inventora da brincadeira, se divertia conosco. “Ele pisou no branco, eu vi, eu vi.” “Não pisei, não.” “Pisou que eu vi.” “Agora é você quem está pisando!” E gargalhávamos todos, voltando os cinco passos de prenda.


Lembro-me desses domingos como dias felizes, o tempo e as dores suspensos para que pudéssemos passar, só no preto ou só no branco.


Mas não tardou para o tempo e a dor começarem a cair sobre nossas cabeças, até nos preencher de tal forma que a brincadeira de antes se tornou, ela mesma, a razão da nossa angústia.


A distância a ser percorrida aumentou, primeiro, para dois quarteirões, depois para três, quatro, e assim por diante, até o momento em que éramos compelidos a percorrer todo o trajeto Copacabana-Leme-Copacabana pisando apenas em uma das cores, e então já não achávamos graça em nada, meu irmão e eu nos olhando numa cumplicidade que só nós entendíamos, numa tristeza só nossa. Depois de insistir que ela parasse com a brincadeira, depois de conversas e gritos, meu pai acabou desistindo, resignado, a cabeça baixa enquanto a mulher e os filhos ziguezagueavam pela orla.


Nossos domingos foram rareando, rareando, até que um dia terminaram. O passeio, o cozido, a suposta felicidade.


E o zigue-zague da minha mãe não tinha fim.”



Trecho salpicado do 2º romance de Tatiana Salem Levy, intitulado Dois Rios.