“A primeira coisa que se revela em meio ao vazio é um vaso, cristal da Boêmia, azul, sem serventia. Perdido na névoa, sua base rebrilha sobre uma superfície indefinível. O vaso, obra tão delicada, gira, gira, gira vagarosamente no espaço, ou são nossos olhos que o contornam, não se sabe. Ao menos, tem-se um ponto, fiapo de nada, mas ao qual logo se acrescentará outro. E outro. E outro. Até que se tenha uma história, um homem, uma vida.


A mãe lhe deu o nome de Tiago. Por maldade ou não do acaso, depois de meses ausente, ele vem subindo a estreita alameda para visitá-la. Não a avisou antes, como de costume, telefonando para a vizinha, será uma surpresa, se é que esta palavra existe no vocabulário das mães.


Há meses Tiago não lhe traz um vaso de violetas, um xaxim de avencas, um buquê de margaridas, paixões dela, tão acessíveis a ele. E há meses não lhe traz a si mesmo, seu filho. Ainda mais se sabemos que as mãos dessa mulher são boas para cuidar plantas, medo nunca teve de espinhos, ninguém pode culpá-la se uma semente não criou raízes.


Choveu a manhã inteira e o barreiro se espalhou pela rua sem calçamento. Sob a copa de uma árvore centenária, os meninos da vizinhança se enlameiam, Tiago continua a subir, logo os alcançará; em outro plano, está se afastando deles, em definitivo. A casa de sua mãe, pequena, facilmente identificável pelo jardim bem-cuidado, está incrustrada além da árvore, onde o aclive do terreno é mais acentuado.


Na mão esqueda, Tiago carrega sua maleta, uma muda de roupa é o bastante, veio só por um dia, irá por muitos. A mão direita, livre, alternou-se com a outra, depois de muito andar, a espuma vira chumbo. Difícil é o contrário, a cruz sobre seus ombros se transformar nas asas de um anjo. Assim se mede um homem, pela capacidade de mudar as coisas, pelo peso de seus sonhos […]”




Trecho do conto O vazo azul, presente na antologia O volume do silêncio (Cosac Naify), de João Anzanello Carrascoza. Leia o perfil completo do autor na 10ª edição.