A Casa das Rosas abriu as portas, na quinta-feira (21/11), para receber Andréa del Fuego na 3ª edição do Isto não é um perfil – Desmontando os escritores da prosa contemporânea. Com entrevista e mediação de Luiz Nadal, a trajetória literária da autora foi discutida com o público, camada por camada.




Na primeira delas, a trilogia de Andréa foi apresentada com a performance de Luz del Fuego (foto), musa que inspirou seu nome artístico. (Ela não se chama Andréa del Fuego, claro). Para cada um dos livros, uma peça de roupa foi ao chão e a autora pôde falar à vontade sobre importância dos seus primeiros contos em prosa poética e conhecidos pelas pitadas eróticas: Minto enquanto posso, Nego tudo e Engano seu.




Como grande frequentadora de antologias literárias que é, Andréa fez leituras de alguns textos de sua autoria que saíram em edições coletivas. O memorável Como ganhar um Jabuti, publicado na coletânea 35 segredos para chegar a lugar nenhum (Bertrand Brasil), organizado por Ivana Arruda Leite, ganhou a luz de spots. Baseado nos conselhos oferecidos no conto, o Cachimbo montou a imagem ideal da escritora vencedora. Enquanto o público admirava o resultado na foto, Andréa leu o trecho abaixo:


“Quem são as pessoas interessantes num lançamento? Na chegada, todos. Cumprimente-os com a técnica do sorriso e não beba o vinho branco. Com o tempo você pode tomar vinho branco, mas é peciso já ter livro publicado. Com dois livros você pode tomar dois copos; com três, três; com quatro você não precisa mais ir aos lançamentos. Repare quantos autores consagrados frequentam lançamentos. Só vão aos deles.


Lobby é cafona, mas funciona. Os caras já esperam lobby, assédio, o bilú bilú tetéia. Seja fino, lobby tem efeito quando não se pode percebê-lo. Nada de convidar um editor para uma leitura com violão em seu prédio. Eles detestam e vão marcar sua cara. Não dê originais em bares, eles esquecem lá.


Quando algum autor se dispuser a ler seu original, não acredite. Ele está apenas sendo agradável, o escritor acredita que é visto e ouvido mesmo no cantinho da livraria; ele é simpático por vaidade. Vai ler e fugir de você nos próximos lançamentos, isso se o texto for ruim; se for bom, não vai te desejar um Jabuti.


Para autores inéditos sugiro lançamentos toda semana; para os com até três livros publicados, indico saraus em casa de escritor; para quem passou dos seis livros, fique em casa para valorizar a presença.”





Outra participação marcante no percurso literário de Andréa foi em + 30 Mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (Record), organizada por Luiz Rufatto. Seu belo rosto figurou ao lado de escritoras como Veronica Stigger e Elvira Vigna. No conto Avon, o presidente da marca de cosméticos dá uma palestra às consultoras de vendas. Pensando no machismo desaforado do personagem, caprichamos na maquiagem e cabelo para que Andréa lesse o trecho abaixo:


“Meu nome é Agenor Sampaio, vou iniciar a palestra de forma clara e direta. Essa rede de cosméticos em que vocês todas trabalham como consultoras de beleza e que eu, muito satisfeito, presido, se fez existir por conta do que explanarei.

Gostaria que as senhoras do fundo ficassem em silêncio, obrigado. Abro os trabalhos dizendo que a mulher bonita é mais amada que a feia. Já viram um homem diante de uma bela fêmea? É a falência de toda defesa. Não irão vê-lo igual diante de outra coisa.

Ele pode, sim, se apaixonar por uma mais ou menos. Mas se a paixão é por uma linda, as pernas não respondem, a saliva engrossa, o sangue afina. O homem tem um ferrão incandescente, um bastão em brasa que vai sapecando a mulher até secar a vida dela. Pode ser filho, irmão, pai, amante. Não é o sexo, é um ferrão psicológico. Nas belas, o ferrão pode se esfriar, pois nela, na beleza, há um antídoto que eu chamo de Bacia de Mercúrio.

Uma vez tendo o homem amornado o ferrão, a bonita se liberta. Já a feia não possui a Bacia de Mercúrio, mas um Pote de Maionese. O que de nada adianta. Em vez de amornar o ferrão, a maionese oxida, piorando as coisas.”




Bem nascida nas narrativas curtas, Andréa costumava escrever diariamente pequenos textos no seu blog, muitos deles inspirados em imagens fotográficas. E para revisitar sua relação com as histórias de curta duração, solicitamos a leitura do miniconto Arruda, integrante d’Os cem menores contos do século (Atelie), idealizado por Marcelino Freire. A autora leu, em três segundos, a história que poderia facilmente ganhar 30 páginas:


Arruda


Se for o Capeta, diz que eu tô no banho.




Na parte final da desmontagem, seus dois romances foram colocados lado a lado. Os Malaquias (Língua Geral), vencedor do Prêmio José Saramago de Literatura em 2011, e As miniaturas (Cia das Letras) fixaram a marca do realismo mágico na sua escrita. Se o primeiro romance trazia apenas uma faísca do absurdo, o segundo e mais recente trabalho (leia a resenha que fizemos aqui) dá um mergulho no fantástico. Com um livro em cada mão, a escritora falou dos seus significados mais rasos e mais profundos.




Fantástica também foi a participação de Bernadette Lyra, que tomou assento no palco para dar um testemunho sobre o misticismo que envolve a literatura e a vida de ambas. Para entender a relação cósmica entre as duas escritoras, veja com os próprios olhos o texto de Andréa, publicado no blog da Cia das Letras, por aqui.




Não bastassem as surpresas do acaso ou do destino, as fotografias do evento também ganharam um detalhe incomum. Veronica Ortega, especialista em imagens oníricas (veja aqui), foi quem registrou os acontecimentos fantásticos do encontro. Por fim, o que sabemos de mais real e menos fantasioso, é que dezembro reserva a edição de encerramento do Isto não é um perfil – Desmontando os escritores da prosa contemporânea. E que nosso próximo convidado é o quadrinista e escritor Lourenço Mutarelli. O evento será na terça-feira (10/12), às 19h30, na Casa das Rosas. A entrada é franca e você é nosso leitor e espectador.