Foto: Débora Nazari

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A entrevista ao vivo com Lourenço Mutarelli, na terça-feira (10/12), completou a 1ª parte do projeto Isto não é um perfil – Desmontando os escritores da prosa contemporânea. Em parceria com a Casa das Rosas, os escritores perfilados no nosso site são entrevistados pelo autor, Luiz Nadal. Desta vez, o encontro foi mais que especial: o convidado trouxe seus gatos de estimação para ajudar na apresentação. Depois de um processo intensivo de adestramento, preparado pela equipe do Cachimbo, cada um dos mascotes apresentou os livros do escritor. Mutarelli, assim como nós, ficou orgulhoso dos seus filhotes peludos.


Foto: Rafael Munduruca

Foto: Rafael Munduruca



Foto: Rafael Munduruca

Foto: Rafael Munduruca





O primeiro deles abriu a discussão sobre O cheiro do ralo, livro de estreia do autor, depois de 12 álbuns de quadrinhos publicados. Eleito melhor desenhista nacional por três anos consecutivos, Mutarelli trouxe um novo ar para a literatura em 2002 com o primeiro título de ficção. No encontro, ele contou em miúdos a trajetória do seu 1º romance, até chegar nas prateleiras dos mais vendidos e ser adaptado para o cinema. Graças ao escritor Ferréz, e ao músico Arnaldo Antunes, o seu manuscrito suado, escrito em apenas cinco dias, saiu da gaveta da editora.




O bichano seguinte anunciou o 2º livro do dono, O Natimorto. Nessa história, um músico caça-talentos descobre uma cantora com voz tão pura que somente ele é capaz de ouvir. O protagonista propõe a ela que passem o resto dos seus dias em um quarto de hotel, lendo a sorte de todos os dias nos maços de cigarro, como se fossem cartas de tarô. Astuto como poucos, o felino preparou o terreno para que Mutarelli contasse sobre as condições absurdas em que o livro nasceu. Certo dia, depois de receber anestesia tripla do dentista, o escritor engatinhava pelo chão da casa. E foi apenas no dia seguinte que se deu conta da ligação que atendera: àquelas alturas o jornalista Ronaldo Bressane se arreganhava com a nova encomenda que receberia do autor de O cheiro do ralo, em um prazo de 15 dias. Não fosse a presença do gatuno cinzento, nosso convidado também não teria contado outros desdobramentos que envolveram a 2ª publicação, como o telefonema de Renata Sorrah e a sua própria performance como galã protagonista no filme homônimo, ao lado de Simone Spoladore.




Uma experiência ousada como A arte de produzir efeito sem causa, ganhou performance à parte. O porta-voz peludo impressionou pela demonstração de como o romance do autor foi capaz de levar a loucura para dentro da linguagem literária. Na medida em que o personagem Júnior vai ficando perturbado – ele é traído pela mulher, abandona o trabalho na distribuidora de autopeças e recebe encomendas misteriosas pelo correio – a linguagem literária vai se desmontando. Mutarelli explicou detalhadamente as peças utilizadas no maquinário do livro, comentou a recente adaptação cinematográfica da obra e contou sobre as experiências no universo do escritor que inspirou a trama: William Borroughs.


Foto: Débora Nazari

Foto: Débora Nazari



Foto: Débora Nazari

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Em Jesus Kid, o garboso siamês se encarregou de introduzir mais um dos escritos de encomenda realizados por Mutarelli. Não por acaso, o livro em questão cria uma trama ficcional em que o protagonista é um escritor, submetido à três meses de clausura em um hotel de luxo para escrever um roteiro de cinema. E foi justamente sobre as inúmeras exigências e imposições enfrentadas neste tipo de trabalho – tratadas no livro com grande ironia – que o escritor se deteve. O trecho abaixo, lido pelo escritor, serviu para falar sobre a sua primeira experiência com um bloqueio criativo:

Foto: Débora Nazari

Foto: Débora Nazari


“Querido diário, hoje faz vinte dias que estou no hotel. Não consigo fazer a história engrenar. Tenho feito desconcertantes descobertas. Percebi que escrever Jesus Kid era uma forma de me afastar do mundo, uma fuga barata, era medo disfarçado em prazer. Nada mais do que isso. Agora que estou exilado, privado do mundo, não consigo lhe dar vida. Não consigo sustentá-lo. Não consigo acreditar em suas verdades. Provo a tal dor de que os Gargantas falavam. A dor de Fink, o vazio de Fante. A dor da criação. Desconhecia esse gosto amargo do teclado emperrado. Não desconfiava da artrose das mãos que não recebem ordens do cérebro. Cérebro covarde. Cérebro que se volta para dentro e só produz pesadelos. Nunca havia abrigado essa coisa que só de alimenta de medo e se incha. Em contraponto, não imagina possível encontrar tamanho prazer no ócio. Não me refiro ao ‘ócio criativo’, mas ao ócio ocioso de atirar cartas a um chapéu ou de contemplar rachaduras no teto. Não consigo manter Jesus Kid de pé. Não avanço. Nem na história encomendada nem nos caminhos que Jesus poderia correr. Estou preso, amarrado. Em breve, sofrerei a mordida do lobo e me verei obrigado a fugir do sol. Em breve, só moverei os olhos e serei obrigado a comer da comida que alguém, por caridade, mastigar […].”




As apresentações só melhoraram. No 5º bloco, o quadrúpede pomposo encomendou uma porção de donuts para descontrair a fala sobre o anti-romance policial de Mutarelli, Miguel e os demônios. Muitas das histórias narradas pelo personagem Miguel, segundo o autor, eram contadas pelo pai policial durante o almoço. Mutarelli leu um trecho desta obra que foi escrita originalmente como roteiro cinematográfico. Leia também:



“Dia. Calor. Dezembro. Terreno próximo à Marginal Tietê. Viatura da Polícia Civil ao fundo.
Miguel e Pedro caminham pelo terreno. Seguem uns garotos. Local. Moscas. Miguel e Pedro chegam ao local.


Crime de autoria desconhecida.


Homem caucasiano. Corpo de bruços. A cabeça e as mãos foram enroladas com saco plástico e depois incendiadas. Coisas para dificultar o reconhecimento da vítima.


Moscas sobre o corpo.


— Quem encontrou o corpo? — pergunta Pedro.
— Fui eu, tio, tava indo pro campinho — diz um dos garotos. Miguel examina o local. Agacha-se. Com um graveto revira o mato.


Sépia. Terreno baldio. Imagem borrada, luz difusa. Lembrança. Um menino solitário brinca com um graveto. Miguel, menino. Detalhe da mão do menino erguendo o graveto para o céu. O graveto acompanha o percurso de aviões que passam. Esquadrilha da Fumaça. O menino tropeça em algo e cai. Percebe um cão vira-lata morto a seus pés. O menino se levanta e com o graveto cutuca, levemente, o cão.


— Miguel!


Miguel retorna do transe e percebe que faz o mesmo com a carcaça do homem. O plástico derretido encapa as mãos e a cabeça.


— A perícia já está a caminho.
— Me arruma um cigarro.
— Ué? Vai voltar a fumar, Miguel? Miguel não responde. Permanece com a mão esticada noar. Pedro entrega o cigarro. Miguel dá uma longa tragada, depois solta a fumaça.


Detalhe da fumaça subindo.”




No último livro de Mutarelli, o pequeno orelhudo preparou um mise-en-scène de grande impacto para o público. O assunto foi tratado e ambientado na trama de Nada me faltará, em que o personagem Paulo volta para casa depois um ano desaparecido e frequenta sessões de análise e hipnose para descobrir o que fez com a mulher e filha, que continuam sumidas. Enquanto o mamífero adestrado atiçava a curiosidade dos presentes com as grandes quantidades de ketchup, Mutarelli revelava aos leitores de onde tirava tantos diálogos de consultório.


Foto: Débora Nazari

Foto: Débora Nazari


O projeto Isto não é um perfil – Desmontando os escritores da prosa contemporânea completa o ano ao lado dos ilustres participantes: Ricardo Lísias, Veronica Stigger, Andréa del Fuego e, enfim, Lourenço Mutarelli. O próximo ano irá trazer novos perfis literários e novas desmontagens ao vivo na Casa das Rosas. Desejamos que o nosso 2014 seja cada vez mais próximo de você, nosso leitor – e agora, espectador.