(Créditos: Daniela Nunes)

(Créditos: Daniela Nunes)


A 8ª edição de Desmontagens de Escritores, realizada na Casa das Rosas na última quinta-feira (26/06), fechou o ciclo do evento literário promovido pelo site Isto não é um cachimbo em parceria com a Poiesis – Instituto de Apoio à Cultura, à Língua e à Literatura. Ao longo de um ano, o espaço cultural deu suporte ao projeto que levou os escritores perfilados do site para entrevistas ao vivo. O autor convidado para o encerramento foi Marcelino Freire, vencedor do prêmio Jabuti 2008. O escritor atraiu um grande público de leitores, que acompanharam suas leituras performáticas e a entrevista conduzida por Luiz Nadal.





O perfil literário do autor, publicado na 6ª edição do site (leia!), se passa dentro de um teatro. Portanto a proposta da Desmontagem final foi receber o escritor em um palco onde pudesse apresentar os 6 atos da sua obra. Em um abrir e fechar de cortinas, cada um dos seus livros foi debatido, comentado e interpretado pelo autor. Não por acaso, a abertura foi feita com Nossos ossos (Record), o mais recente trabalho de Marcelino. Sua 1ª narrativa longa tem uma relação muito próxima com a arte dramática. Não só o personagem principal é um diretor de teatro, como a linguagem literária se espelha na oralidade característica dos palcos.



Luiz Nadal anunciou o livro de abertura e deu a palavra a Marcelino, que leu um trecho da história de Heleno Gusmão, dramaturgo que leva o corpo de um michê assassinado para junto de sua família no interior de Pernambuco. Após a leitura, o autor falou sobre as lembranças que emprestou para o seu personagem: a infância no sertão, a descoberta do teatro e o abandono da terra natal para tentar a vida em São Paulo, onde vive há 23 anos. A imagem abaixo, que representa o enterro do autor e do seu personagem em Nossos ossos, foi projetada no telão durante o evento.




Leia o trecho interpretado por Marcelino Freire para o público:


“O meu boy morreu, foi o que o michê veio me dizer, eu estava de passagem, levando umas compras que eu comprei, vindo da farmácia, não sei, em direção ao Largo do Arouche.
Cinco facadas, um corte foi bem na altura do peito, o garoto perdeu três dentes, bateu com a cabeça à beira de um banco de madeira, tremelicou perto de onde vivem os ambulantes, ao lado do quiosque de cosméticos, sabe, não sabe?
De fato eu saí com o boy morto muitas vezes, tomamos prosecco, caju-amigo, licor báquico, eu trouxe o garoto, certas madrugadas, para meu apartamento, ele ficou admirado com os livros que eu guardo, numa pilha os amores de Lorca, os cantos de Carmina Burana, dramas de todo tipo, vários volumes sobre técnicas apuradas de representação.”



Em ordem decrescente, o ato seguinte trouxe o 5ª livro de Marcelino Freire. Amar é crime, publicado em 2011 pelo coletivo EDITH, foi a transição do autor para ingressar na narrativa longa de Nossos ossos. Com contos de até 8 páginas, esses pequenos romances – como chama o autor – trazem cenários maiores e personagens mais complexos perto dos primeiros livros. Neste bloco, Marcelino explicou o ímpeto vingativo que caracteriza os personagens e os motivos de tanto sangue e lágrimas derramadas nas 14 histórias do livro. Ao final, satisfeito com o porte de escritor-vingador projetado na imagem do telão, o autor leu um fragmento do conto Jesus te ama, história em que um padre é detido pela polícia por fazer sexo com um adolescente.



Leia:


“O rapaz era bonito. Quando passei ele abriu os músculos. Rezo. Quando passei o rapaz me azucrinou. Quando olhei ele me olhou. Rezo. Entrou na minha alma como um vampiro. Rezo. Como um Cristo, Meu Deus, não posso. Certas imagens me ameaçam. Cristo e o seu corpo. Quando pequeno, queria tocar o corpo de Cristo. Esconjuro. O corpo perfeito. Esconjuro. O corpo de braços aberto. Esconjuro.
Não posso pensar. A delegacia me vigia. O policial para cá e para. Há um crucifixo em cima do arquivo morto. Jesus, Nosso Senhor, santificado seja o Vosso Nome. O rapaz não falou a verdade, disse que se chamava Pedro. Saiu da esquina, fomos andando. Feridas por todo canto. Furúnculos. Criaturas de rua. O meu amor é humano. Solidário, sofrido. Não tenho culpa, repito. O mosteiro que se mudasse para a Conchinchina. Longe, para o inferno, além. Menos aqui.
Por que não foram para um hotel, hein, para um motel, padre?”



Em seguida foi a vez de Rasif – mar que arrebenta, o 4º livro de contos do autor, publicado em 2008. Na imagem criada no palco estavam alguns dos personagens que figuram nas 17 narrativas desse livro. Os cenários diversos, do sertão brasileiro ao Casaquistão, recriam o Recife do autor. Um apocalipse quotidiano em que crianças tentam matar o papai noel e as passeatas pela paz são coisas de madames. Os contos que compõem Rasif, alguns parecidos a pequenas rezas e orações, foram batizados de cirandas pelo autor. Para explicar melhor, Marcelino finalizou o bloco com a leitura de Para Iemanjá.


Leia:


Oferenda não é essa perna de sofá. Essa marca de pneu. Esse óleo. Esse breu. Peixes entulhados. Assassinados. Minha Rainha.
Não são oferenda essas latas e caixas. Esses restos de navio. Baleias encalhadas. Pinguins tupiniquins. Mortos e afins. Minha Rainha.
Não fui eu quem lançou ao mar essas garrafas de Coca. Essas flores de bosta. Não mijei na tua praia. Juro que não fui eu. Minha Rainha.
Oferenda não são os crioulos da Guiné. Os negros de Cuba. Na luta. Cruzando a nado. Caçados e fisgados. Náufragos. Minha Rainha.
Não são para o teu altar essas lanchas e iates. Esses transatlânticos. Submarinos de guerra. Ilhas de Ozônio. Minha Rainha.
Oferenda não é essa maré de merda. Esse tempo doente. Deriva e degelo. Neste dia dois de fevereiro. Peço perdão. Minha Rainha.
Se a minha esperança é um grão de sal. Espuma de sabão. Nenhuma terra à vista. Neste oceano de medo. Nada. Minha Rainha.



O ato seguinte colocou no palco alguns representantes de Contos negreiros. O livro vencedor do prêmio Jabuti 2005 na categoria Contos ficou conhecido por fazer uma releitura moderna do preconceito, que protagoniza negros, índios e homossexuais em 16 contos – também chamados de cantos pelo autor. O bloco serviu para que Marcelino falasse sobre os predicados sempre tão associados à sua autoria, como o de escritor político e escritor marginal. E para esconjurar a demagogia e o papel de porta-voz dos oprimidos, o escritor fez uma interpretação enfurecida de Trabalhadores do Brasil.



Leia o conto em que os orixás encarnam personagens da vida ordinária:


“Enquanto Zumbi trabalha cortando cana na zona da mata pernambucana Olorô-Quê vende carne de segunda a segunda ninguém vive aqui com a bunda preta pra cima tá me ouvindo bem?
Enquanto a gente dança no bico da garrafinha Odé trabalha de segurança pega ladrão que não respeita quem ganha o pão que o Tição amassou honestamente enquanto Obatalá faz serviço pra muita gente que não levanta um saco de cimento tá me ouvindo bem?
Enquanto Olorum trabalha como cobrador de ônibus naquele transe infernal de trânsito Ossonhe sonha com um novo amor pra ganhar um passe ou dois na praça turbulenta do Pelô fazer sexo oral anal seja lá com quem for tá me ouvindo bem?
Enquanto Rainha Quelé limpa fossa de banheiro Sambongo bungo na lama e isso parece que dá grana porque o povo se junta e aplaude Sambongo na merda pulando de cima da ponte tá me ouvindo bem?
Hein seu branco safado?
Ninguém aqui é escravo de ninguém.”





BaléRalé, lançado em 2003, foi representado no palco com duas figuras que compõem o título do livro, o Balé e a Ralé. Os 18 improvisos – como chama dessa vez o autor – brincam com as variações entre Erudito & Popular, Belo & Decadente, Sagrado & Profano. E se por um lado o autor comentou a grande carga de humor e duplos sentidos que caracterizam o livro, também explicou a forma como o erotismo é sempre tratado com violência e brutalidade na sua obra. Foi ainda a chance que Marcelino teve para sair do armário como poeta. Segundo o autor, entre todos os livros, BaléRalé se trata do “trabalho que tem mais poesia assumida”.






Por fim, o último – e ao mesmo tempo, o 1º livro de Marcelino publicado por uma editora – foi representado da forma mais literal possível, como se vê na imagem abaixo. Angu de sangue, publicado em 2000 pela Ateliê Editorial, já continha todos os ingredientes do projeto literário do autor. Marcelino então compartilhou as lembranças de quando seu angu ainda não era conhecido. Voltou às edições independentes que fazia, como é o caso do livro EraOdito e fez a leitura do conto Muribeca, que levou o crítico João Barbosa a ajudá-lo na publicação de estreia. Após o ato final o público de leitores fez perguntas ao escritor e foi sorteado com dois livros.






Agradecemos a presença de todos os leitores que foram espectadores durante essas 8 edições de entrevistas ao vivo, ao longo de um ano. Também aos escritores que entraram de peito aberto na brincadeira das Desmontagens: Ricardo Lísias, Veronica Stigger, Andréa Del Fuego, Lourenço Mutarelli, Marcia Tiburi, André Sant’Anna, João Carrascoza e Marcelino Freire. E especialmente à Casa das Rosas e sua equipe, tão importantes na realização do projeto. De mais a mais, os escritores continuarão a escrever seus livros e o Isto não é um cachimbo estará sempre de portas abertas com café e novidades sobre a mesa.



Fica aqui, ainda, o agradecimento a Daniela Nunes, idealizadora do projeto Fotografia Literária, que registrou o nosso evento.