Adriana Lisboa

Acompanhamento: Madalenas com chá de hortelã
Trilha sonora: Misty (Ella Fitzgerald)


Lá de baixo, enxerguei o templo. A encosta era realmente íngreme. Tinha esperanças que houvesse um elevador, um bondinho. Mas não havia sequer escadas. Adriana, você tá me ouvindo, ouvind, ouvin? Tem alguém aí em cima, em cim, cim? Dobrei o mapa e coloquei no bolso de trás. Encostei a bicicleta ali mesmo no pé do morro e comecei a escalar. Adriana bem que havia me avisado não é tão fácil assim de chegar, quer uma sugestão? (Não se preocupe Adriana, tenho Google maps, não se preocupe). Abracei o morro como se abraça um dragão de komodo. Me pendurei nas pedras e cravei os dedos na terra. A cada galgada tomava fôlego. Não olha pra baixo, não olha pra baixo, não olha pra baixo. Impulso outra vez! Se eu chegar lá em cima inteiro, a primeira coisa que vou perguntar é como você faz pra frequentar as feiras, os saraus, ir no bar, Adriana? E quando recebe algum prêmio ou lança livro novo? Duvido que ela não tenha uma corda que seja para subir elegantemente essa corcova verde.



Lá de cima, dentro do templo, Adriana esperava. Estava sentada de frente para a janela durante todo o tempo. Do lado de fora ele vinha que vinha. Cada vez mais perto. A bicicleta já era um pontinho laranja lá embaixo. Descabelado, a cara inchada como um balão, a roupa suja de terra. Adriana não movia um fio de cabelo. Não havia turistas tirando foto com os dedos em V, nem barraquinhas com Hello Kitties, budas gorduchos e tsurus. No ápice da concentração, Adriana ouviu as bandeirinhas triangulares lá fora. Um peixe do pequeno canal de pedra deu uma rabada na água. As folhas do pé de caqui chiaram com o vento mais forte. Uma revoada de pássaros perturbou o azul-mudo do céu. Por fim, um barulho abissal invadiu a sala. Com os tímpanos zunindo, Adriana pensou eu bem que avisei.



Quando finalmente alcançou o topo, ele puxou todo o ar possível para acalmar os pulmões. Bateu a terra do corpo e se encaminhou até o templo. Passou mancando por baixo das bandeirinhas, viu os quiosques fechados, o pé de caqui. Os pássaros que se alarmaram com a sua chegada. Olhou os peixes que flutuavam na água e pensou vocês têm sorte de não precisar sair daí. Ao se aproximar da entrada viu Adriana sentada no chão, de costas para ele, em frente à janela. Deu um passo adentro. A tábua do chão fez um nhéc tão fino, mas tão fino, como um alfinete caindo no outro canto da sala e aquilo visto em super close e slow motion e o barulho original sendo substituído pelo de um terremoto. Como no Science & Nature da BBC!, mas não disse nada. As paredes brancas também não disseram nada, porque havia um pôster enorme do Miles Davis com o indicador direito esticado em frente aos lábios. Shhh, dizia Miles, shhh. (E a placa ao lado: Tire os sapatos antes de entrar!)



( – Adriana, vou usar a sua técnica do silêncio com esses parênteses pra não perturbar a sua meditação.)


Adriana acordava com o batuque do pai na mesa da cozinha. Tomava café com ele antes que saísse com o tuc tuc tuc pela Doutor Coqueiro e voltasse do trabalho só no final do dia. As tardes ficavam silenciosas enquanto o pai estava no banco cuidando do dinheiro do país. – Mas se é de todo o Brasil mesmo, pai, como faz pra caber lá dentro do cofre? Enquanto o pai não trazia o tuc tuc tuc de volta, a casa fazia outros sons. A tia e os primos no andar de cima: som do comercial de margarina, só que sem música e por isso menos agradável. O matagal na rua sem saída: som das férias em Cordeiro, na casa do avô Bento. E a bica d’água: som do chuveiro de Copacabana, que tirava a areia do balde, da pá e do ancinho. (Quando o avô de Adriana construiu o prédio de dois apartamentos idênticos para as filhas ao lado do seu, mais de 50 anos antes, ele não sabia que hoje a ruazinha de Laranjeiras teria uma placa do BOPE no matagal, poluindo os sons da memória).



( – Caramba, esse lugar é tão silencioso que eu escuto até os meus pensamentos, Adriana!)


No fim do dia, a mãe Gilda ficava no seu lalalaiá diante da janela. Queixo-me às rosas, mas que bobagem, as rosas não falam. A letra era interrompida quando via o marido cruzar a rua com os amigos. Era um auê as duas pegando os copos, o gelo, colocando as cadeiras em círculo. (E como se apertasse play novamente) o vozeirão do pai entrava pela porta: simplesmente as rosas exalam, o perfume que roubam de ti, ai! “Meu pai tinha o maior vozeirão, tipo o Sílvio Caldas”. A voz de Adriana dissolve como uma colher de sal num copo d’água. Os lalalaiás entravam na madrugada, o coro saía pela Doutor Coqueiro e terminava no Antonino, na Lagoa Rodrigo de Freitas. Adriana, Duso e Ana Lúcia ouviam o restante só no outro dia, durante o café: “Acontecia muitas vezes que o músico deixava o palco durante o intervalo e eles subiam e continuavam a cantar”. (Adriana ainda não sabia, mas em 2007 estaria vivendo nos Estados Unidos e teria um violão igual ao da mãe para tocar Cartola e Noel Rosa quando a saudades de casa apertasse).



( – Você deve se entreter muito com os seus pensamentos por aqui, não é mesmo? Sinceramente, os meus parecem um bando de macaquinhos selvagens.)


Quando Adriana aprendeu a ler, os pais a levaram para conhecer a Entrelivros, no Largo do Machado. E a cada aniversário, ela dava um livro da Vaga-Lume para os amigos. Saía da loja sempre satisfeita: O escaravelho do diabo é pra Aninha. E O caso da borboleta Atíria, Spharion e A ilha perdida são pra mim! “Por mais que não vivesse no meio de gente que lesse, eu tinha todo o apoio”. Com as primeiras leituras, Adriana começou a escrever. No primeiro concurso da escola, ela fez uma edição de luxo para o poema Meu sonho: Sabe, já tenho planos/ Para quando eu crescer:/ Eu quero ser uma rainha/ De qualquer coisa, pode ser. “Era docemente megalomaníaco e equivocado” – Adriana evita mitos como escritora-desde-os-nove. (A Entrelivros não sabia, mas seria substituída por uma farmácia tempos depois. Assim como Adriana não sabia que teria um filho chamado Gabriel com quem frequentaria outras livrarias, leria histórias antes de dormir e acabaria escrevendo três livros infanto-juvenis, além de uma novela para público jovem).



( – Lalalaiá, lalalaiá, quando é que esse silêncio vai acabar? tuc tuc tuc)


Aos treze os pais a matricularam na Pro-Arte. “Estudar música foi uma atividade paralela na minha vida”. Adriana teve diferentes trilhas sonoras durante os seis anos que frequentou a escola. Teve aulas de violão, flauta transversa, baixo e canto. Com dezoito anos, viajou para a França. (Pause!). Em Avignon, conheceu os donos do Tudo Bem, um bar com decoração verde-amarela na Place Carnot, no centro histórico da cidade. Adriana não subia no palco apenas durante o intervalo, o lalalaiá era todo seu até a madrugada. E os franceses ficavam tuc tuc tuc nas mesas, com caipirinhas do lado. Ao final de um ano decidiu voltar. (Play!). “Estudar acabou sendo natural, dar continuidade ao que vinha fazendo”. Adriana então se graduou na Unirio, como bacharel em música, em 1994. (Adriana não sabia que pouco tempo depois desistiria de dar aulas de flauta e que a música seria apenas uma trilha sonora para a escrita).



( – As suas costas não doem, não? Eu jamais conseguiria ficar sentado no chão por tanto tempo.)


“O que a pessoa faz quando quer dedicar todo o seu tempo para a escrita?”. (Silêncio). “A pessoa então escreve”. Com uma simplicidade quase oriental, Adriana deixou a flauta de lado e sentou para escrever o primeiro romance. Os Fios da Memória é a história de uma família inteira, contada por Beatriz Brasil. Herdeira de um casarão e algumas fazendas, a personagem passa os dias dentro da nova propriedade recordando a história dos antepassados. “Tenho a impressão que nesse primeiro romance quis abarcar tudo de uma vez, como se nunca mais fosse ter oportunidade de escrever” – Adriana se justifica com palavras-tapa-nas-costas. Por outro lado, a primeira experiência de escrita deixou duas marcas visíveis: o uso da memória como paisagem ficcional e a ponte entre a realidade mais imediata e o íntimo dos personagens. “Hoje, com um pequeno tema, sinto que posso dizer muito mais” – Adriana fala como se penteasse os fios do pensamento. Aos 26 anos, os primeiros originais passaram despercebidos por três editoras. Publicado pela Rocco, o livro caiu como uma pedrinha na lagoa e reverberou em um ou dois suplementos literários cariocas. Porém, o objetivo maior foi alcançado. Ao escrever um romance inteiro e conseguir publicá-lo, estava diante do mais importante: “Colocar a atividade da escrita no centro da minha vida”. (Adriana ainda não sabia, mas ganharia o Prêmio José Saramago com o seu segundo romance, em 2003).



(– É impressão minha ou o seu olho esquerdo está abrindo, Adriana?) Que alívio, achei que fosse ter que usar parênteses o resto do dia!


“Acho que hoje existe uma certa hipertrofia da figura do escritor”. A voz de Adriana saiu da garganta como uma borboleta brota do casulo. Ela se levantou, pegou um incenso do altar, encostou a ponta na única vela acesa e assoprou a chama. “Muitas vezes o escritor brasileiro aparece mais do que a sua própria obra. É comum que se conheça o autor, mas não o que ele escreve”. Os olhos de Adriana se fixaram em mim como um enquadramento de Ozu. A fumaça começou a preencher a sala aos poucos, enquanto ela voltou para o mesmo lugar. Colocou as pernas em posição de lótus, polegar e indicador em círculo, mãos sobre os joelhos, palmas voltadas para cima. Pensei caramba, mais silêncio Adriana? Naquelas alturas eu ainda não sabia que os romances de Adriana são feitos do mais puro silêncio e que quase tudo se passa dentro da memória, sem que o personagem saia do lugar.



– Já fechei os dois olhos, Adriana, pode vir conferir! Estou tentando visualizar o branco, mas é difícil um branco-branco, sem nenhuma manchinha.


Em Sinfonia em Branco duas irmãs estão distantes há dez anos e compartilham um segredo. Antes que finalmente se encontrem, uma voz branca, quase transparente, preenche o vazio dos acontecimentos passados. A narrativa se espraia pelas lembranças das personagens e volta para o presente, sugerindo o que carregam consigo: “Clarice sentiu mais uma vez com as pontas dos polegares as duas cicatrizes gêmeas, uma em cada punho”. O peso dos fatos é subtraído por esta forma de narrar, em que tudo fica implícito. A ponta dos assuntos proibidos é desvelada discretamente. Maria Inês, ainda uma criança, olha pela porta entreaberta: “A náusea, o medo. Um homem maduro. Um seio pálido que o olhar fisgava sem querer”. O leitor adentra na memória da infância, na casa do interior do Rio de Janeiro, até o momento do encontro. Conduzido por essa narrativa silenciosa, cuja maneira de contar sobre uma violência extrema está no calar. “Para enxergar todas as palavras que não são ditas” – Shhh, faz o narrador, shhh.



– Sinto que posso chegar em qualquer lugar, Adriana. Qual é o próximo?


As paisagens seguintes se formaram a partir de pesquisas acadêmicas. O romance Um beijo de Colombina foi escrito no lugar da dissertação de mestrado em Literatura Comparada, na Uerj, em 2003. E Rakushisha, como a tese de doutorado, em 2007. “Nesses casos específico, a inspiração veio do diálogo com poetas”. (Adriana disse não gosto muito dessa palavra: inspiração). Ambas as histórias partem do universo ficcional e biográfico de dois escritores. Manuel Bandeira deu a Lapa como fundo e emprestou personagens como Teresa para a criação do novo enredo. “Um romance todo costurado com contos e crônicas do Bandeira, às vezes misturando uma passagem, um personagem” – Adriana explica, inspira e expira. Pouco tempo depois, Adriana já tinha uma nova paisagem em mente: “Um escritor que viaja a pé pelo Japão para ver a lua nascer em um templo e ao chegar lá não consegue ver porque está nublado”. O poeta Matsuo Bashō escreveu o diário de viagem dessa jornada nos arredores de Kyoto, em 1691. Todos os haikais do escritor foram traduzidos por Manuel Bandeira e lidos por Adriana, que logo passou a pesquisar sua obra durante cinco anos. Além de visitar o país onde nasceu e morreu, com uma bolsa de incentivo da Fundação Japão. No romance que veio em seguida, o personagem Haruki é convidado a ilustrar justamente a primeira edição em português do Diário de Saga, que no princípio era apenas uma pequena imagem na cabeça da autora.



– Como eu mentalizo esse Azul Corvo mesmo, Adriana? Você pode me ajudar aqui?



– Desculpe, Adriana, mas minha mente está exausta. Podemos voltar para o branco?


A tonalidade clara, quase transparente, de Sinfonia em Branco, também recobre os seus livros mais recentes – Azul Corvo, publicado em 2010 e Hanói, de 2013. “É uma coisa quase orgânica da memória” – Adriana descreve a matéria porosa e comum aos três romances. Tanto Azul Corvo quanto Hanói trazem assuntos graves como a morte. No primeiro, a estudante Evangelina perde a mãe ainda adolescente. No segundo, o músico David recebe um diagnóstico de poucos meses de vida com apenas 32 anos. “O desafio é como escrever isso de uma forma que não seja pesada, mas ao mesmo tempo não uma forma levinha, ou frívola”. Talvez por isso alguns críticos olhem a sua escrita pelo prisma delicadeza. Diante desse conceito, Adriana descreve as imagens que passam no seu branco: “Coisas frágeis, meio quebradiças, uma xícara delicada”. E por fim, quando se concentra em criar outra definição sobre a própria escrita, ela solta: “Eu gosto mais da ideia de leveza”. De fato, Adriana parece estar sempre prestes a levitar.



– Estou abrindo os olhos, Adriana!


Como tudo permanecia igual ao meu redor, Adriana pareceu adivinhar o meu pensamento: “Quando você fecha os olhos o mundo não some, continua lá visível para os outros”. Mas não disse nada além disso. A essa altura eu já poderia lidar melhor com a falta de palavras. Contei dez segundos que pareceram dez minutos. A parede branca começou a se inquietar, as bandeirinhas lá fora, os pássaros, Miles Davis fazendo shhhh! Mas que diabos, Adriana, como é que eu vou fazer pra descer daqui?


– Vem cá, querido. Dá uma olhada na minha janela. Tem uma escada desse lado, ó.



Biblioteca: Prateleiras horizontais pintadas em branco, sem divisórias e laterais. A divisão dos livros é feita a partir das cores das lombadas e das encadernações. A fileira cria um prisma de luz que se decompõe gradualmente. Virgínia Woolf, Thomas Mann, Clarice Lispector, José Saramago e Manuel Bandeira estão misturados para garantir o efeito. “Quando eu estou irritada com alguma coisa, retiro livros, reorganizo”.


Leitor ideal: Aquele que lê como um budista.


Personagem: Sidarta, de Sidarta (Herman Hesse)



Ilustração: Luiz Wachelke

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