andrea


Acompanhamento: Banana flambada e milk shake com chantilly


Trilha sonora: A vaca de fogo (Madredeus)



Andréa, o maldito despertador não tocou. Já tinha passado das onze quando tomei o ônibus. Meu estômago ficou nervoso e gelou a minha espinha. Saltei na esquina da Doutor Arnaldo com a Alfonso Bovero. Minha barriga rosnava. rrrr. Uma fila de pessoas despontava da Padaria Real. Uma centopeia imensa, justo no dia da entrevista. Esperei de pé por mais de uma hora. As paredes do estômago se curvaram uma contra a outra. Na minha frente ainda havia uma senhora, um executivo e uma babá. rrrr. Eles fingiram não escutar a minha aflição. Estiquei o pescoço mais uma vez: você ainda estava na cadeira, Andréa. Se os clientes não se assustam com um corpo mole e gigante, os meus ruídos internos são uma benção. Logo é a minha vez. Na sua mesa tinha um milk shake com chantilly de um lado e, do outro, uma placa: “Tiro cartas”. Sentei. Andréa, você não me reconhecia, Andréa! Jurei que fazia parte do seu procedimento xamã. Você acomodou melhor o bebê Francisco num dos braços. O pequeno mamava no seu peito com muita vontade. Meu estômago fez ondinhas peristálticas e mordeu um naco de membrana. Jatos de suco gástrico atingiram as paredes: RRRR! Arregalei os olhos. Você pegou na minha mão e pediu que eu cortasse o baralho em três partes – “O que você sonhou na noite passada, meu anjo?”.



Foi isso que sonhei, Andréa.


Ela riu, quando finalmente nos encontramos. Um dos boatos que ouvi sobre Andréa del Fuego foi que, depois de faturar o Prêmio Literário José Saramago, ela passava mais tempo com o bebê Francisco. E como escrever andava difícil, preferia tirar as cartas para desconhecidos numa padaria em Pompeia. “Ela não cobra nada”, era o que diziam. Intrigado, combinei com Andréa no mesmo local e pedi seu milk shake com chantilly.



Andréa, corte o baralho em três, por favor.


Do lado de fora da casa, o ar era úmido, calor, as montadoras de carro faziam barulho o dia inteiro zuuuu. O silêncio, em São Bernardo do ABC Paulista, tinha esse som – Andréa imitou o zuuuu, curvando os lábios. Na vizinhança não tinha muito o que fazer, mas já teve um show do Sepultura, que elevou o silêncio da cidade a outro patamar. O guitarrista da banda, Andreas Kisser, morava na casa ao lado. Andréa adorava receber correspondência dele por engano. Do lado de dentro da casa, tinha uma televisão imensa, a única da vizinhança a ocupar uma parede inteira. Ninguém se acostumava com o silêncio, zuuuu, nem com a estrela do heavy metal são-bernardense. A mãe de Andréa preparava o café da manhã – “O que você sonhou, meu anjo?” Ela contava os sonhos antes da menina. As histórias eram absurdas: paredes feitas de água e peixes nadando pela casa. A mãe levava o ritual a sério, achava que poderia prever algo nos sonhos da filha. Ela guardava alguns manuais esotéricos, uma bíblia e um livro de receitas. Nada de ficção, nada de literatura nas estantes: “Os sonhos da minha mãe foram o meu primeiro contato com a invenção”. Durante o jantar, a mãe colocava Andréa para escrever cartas aos tios de Minas Gerais. Enquanto picava as cenouras, ditava as novidades. Com o tempo, a mãe ia ver a novela em 84 polegadas – “Escreve você, Andreinha, que gosta de escrever”. Quando Andréa decidiu ir a São Paulo, a condição da mãe foi que continuasse a escrever todos os dias, incluindo a parte dos sonhos.



Vire a primeira carta, Andréa.


Andréa conheceu o prazer da leitura depois de escrever muito. Uma amiga atriz lhe apresentou Clarice Lispector, depois veio Cortázar, Murilo Rubião e Roberto Bolaño. Quando leu Alejandro Jodorowski, juntou os pontos – “Se mamãe publicasse suas memórias, o livro dela ficaria ao lado dele na biblioteca”. A mãe achava que Andréa sonhava cada vez melhor: escrevia com frases longas e poéticas, usava boas metáforas, mas talvez suas aventuras fossem eróticas demais. Tudo bem, tudo bem, quem manda nos sonhos da gente? Em São Paulo, Andréa dormia pouco, zuuuu – “Fiz um curso técnico de publicidade, tipo torneiro mecânico chique”. Trabalhou em agências, produtoras de comerciais e fazia editoriais. Para a escrita, sobravam os domingos. E com as cartas, vieram as pequenas narrativas. Reuniu os contos numa pasta e mostrou para um editor. Ele não publicou, mas ofereceu a ela uma coluna sobre dúvidas sexuais: “Responda como se você fosse a protagonista das suas histórias”. Andréa Fátima dos Santos aceitou. “Mas trate de arranjar um pseudônimo”, emendou o editor. A sogra sugeriu Luz del Fuego, que sabia dançar com jiboias e fazia nudismo. “Fico com o cafona e tiro o erotismo”, Andréa del Fuego foi para a redação e abriu a caixa postal. Numa das cartas, um leitor dizia – “Odeio fazer sexo oral na minha namorada, o que faço Andréa del Fuego?” – “Chantilly, rapaz, Chantilly!”.



Mais uma carta, Andréa. E me passe um gole do milk shake, por favor.


Andrea retomou a pasta de contos para tentar a publicação. Minto enquanto posso, seu primeiro livro, teve uma recepção tímida. Para além do tom erótico, seus textos propunham um jogo com a verdade: anotações nos cadernos de escola, conversas detrás da porta, sussurros no elevador. O livro iniciou uma conversa com outros escritores. Andréa passou a se embrenhar nos lançamentos, saraus e logo foi convidada para inúmeras antologias. Em 35 segredos para chegar a lugar nenhum, seu conto oferece instruções para conseguir o Jabuti, prêmio máximo da literatura no Brasil: “Com o tempo você pode tomar vinho branco, mas é preciso já ter livro publicado. Com dois livros você pode tomar dois copos; com três, três; com quatro você não precisa mais ir aos lançamentos”. E vieram outras participações: 30 Mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira, Uma antologia bêbada e Os cem menores contos brasileiros do século. Aos poucos, a relação com a literatura se ajusta: “Era como se eu tricotasse um cachecol e não quisesse desmanchar os pontos errados”. Andréa adora metáforas, Andréa olha para os lados: “Murilo Rubião ficava dez anos reescrevendo”. Veio o segundo livro, intitulado Nego Tudo, veio o terceiro, Engano Seu, encerrando uma trilogia. A prosa poética se mantém, os textos enxugam e mais um ajuste: “Adorava escrever me derramando, mas passei a controlar a escrita”.



Andréa, não me esconda nada, Andréa.


Um raio penetrou na casa dos Malaquias durante a noite. O casal morreu, mas os três filhos sobreviveram. Nico ficou na fazenda vizinha, trabalhando para o dono Geraldo. Júlia foi adotada por uma família árabe. E Antônio, por ser anão, permaneceu no orfanato. O romance Os Malaquias coloca um baralho inteiro diante do leitor. Na história, a verdade é verdade, a mentira, mentira – mesmo quando a irrealidade é a regra do jogo. O narrador espalha o baralho, vira as cartas e revela os silêncios dos Malaquias. Anos após a morte de Adolfo e Donana, o filho mais velho se casa e volta para a antiga casa dos pais. Porém, uma hidrelétrica será instalada no vale de Serra Morena. O lugar irá se transformar em represa para fazer eletricidade. Os moradores vendem suas casas, a água transborda as fazendas, todos se mudam para a cidade com casas iluminadas. O mistério inicia quando uma passagem é encontrada além da represa: um outro vale. Toda a água que preenchia Serra Morena havia saído de lá. Nesse lado que ficou seco, também havia moradores. Eles aguardam o retorno da água para desencalhar o navio e chegar ao mar aberto. No vale de lá, água salgada. No de cá, doce. Os personagens são tão misteriosos quanto as terras de Sera Morena. Nico, o Malaquias mais velho, cai dentro do bule de café e desaparece por dias. A defunta Geraldina continua com a figura acesa mesmo depois de morta. Ela vira uma espécie de memória sólida, que passeia sem ser vista. Andréa del Fuego dedicou o livro aos personagens dessa história. Quando criança, ao visitar os avós na fazenda de Serra Morena, era recebida pelo tio, um senhorzinho anão. Mas ao passar pela porteira, a escrita deixa de ser a da própria vida. A literatura tem a sua própria existência: “Com Os Malaquias, sinto que não preciso explicar nada”.



O que essa carta está fazendo na sua manga, Andréa?


Andréa Malaquias bebeu vinho branco na cerimônia do Jabuti e depois no evento do Prêmio São Paulo de Literatura. Finalista em ambos os prêmios, estava prestes a compor o ótimo Como se portar em solenidades literárias: modalidade finalista. Mas antes foi indicada ao Prêmio Literário José Saramago. Durante o voo para Portugal, definiu a primeira regra: “Use preto: serenidade para a derrota, sobriedade para a vitória”. Ao chegar no aeroporto, jornalistas estavam à paisana. Andréa deu discurso na cerimônia de entrega do prêmio, tomou chá com Pilar Saramago e foi reconhecida na rua. Veio o segundo tópico: “Caso o prêmio seja internacional, aumente a cota de vinho branco para meia dúzia de taças”. Seu livro ganhou uma edição portuguesa e traduções pipocaram na Itália, Argentina, Alemanha e Israel. No manual de boas maneiras para finalistas, Andréa alerta: “Ganhar um prêmio literário não quer dizer que o seu livro irá sobreviver ao tempo: você lembra do vencedor do ano retrasado?” Uma dica infalível vem logo em seguida – “Prefira milk shake a vinho branco: pelo menos até ganhar o Nobel”.



Biblioteca: Estante de aço, cinza claro, chapa 26 mm, 10 prateleiras e com rodinhas. “Comprei ela a preço de banana num armazém que vendia móveis abandonados pelo consulado da Albânia”.


Personagem: Julien Sorel, de O Vermelho e o Negro (Stendhal)


Leitor ideal: Aquele que lê como se fosse comer, com amor, que é para digerir melhor.