carola


Acompanhamento: Ovos mexidoscom Sangria


Trilha Sonora: Solitude (Billie Holiday)



Carola, estive aqui para a nossa entrevista, Carola. Bem na porta da sua casa. O porteiro me deixou subir. Por favor, não se aborreça com ele. Eu estava encharcado e com os seus livros embaixo do braço. Fiz a cara da desolação. Toquei a campainha e bati na porta. Ele até ofereceu sorvete enquanto eu esperava. De qualquer modo Carola, quando ler este bilhete, ainda estarei aqui no Rio de Janeiro. Estou hospedado no Paradiso Hotel de Laranjeiras. Quando nos veremos finalmente?


P.S.: Com chuva não há muito o que fazer nesta cidade.



Carola deixou uma mensagem de voz: Sinto muito pelo nosso desencontro. Prometo entrar em contato assim que puder. Eu esperava no quarto do hotel como Sherlock Holmes. Só que de bermudas. As cortinas tinham mini-coqueiros ensolarados. E a janela dava para a Rua das Laranjeiras, com coqueiros imensos, molhados, balançando com o vento. Fiquei de costas para a porta. Recostei a cabeça na poltrona verde-limãoe deixei a xícara de caféna mesa ao lado. Havia avisado o carregador de malas que poderia entrar caso trouxesse alguma mensagem de Carola. Um coqueirinho, um coqueirão. Gosto das histórias de detetive porque tudo se explica no final. Um coqueirinho, um coqueirão. Mas não havia muito o que desvendar nesta cidade com chuva.



– Carola, pra quê tantos envelopes na sua mesa?


Carola tinha três anos quando subiu no avião que ia de Santiago ao Rio de Janeiro. Por pouco não assistiu Pinochet bombardear o Palacio de La Moneda e desfilar de manto e quepe pelas ruas.O pai encarregou a mulher de fechar as malas elevou a família para o aeroporto. Ao chegar, Carola estranhou os novos cômodos da casa. Ainda que todos falassem o mesmo espanhol, algo estranho acontecia embaixo daquele silêncio. A mãe se esforçava para fazer uma voz nasalada no telefone. O pai,quando voltava do trabalho, não trazia mais as empanadas chilenas embaixo do braço. A certeza veio quando dois livros novos apareceram na estante – Papá, Mamá, quienes son Monteiro Lobato y Ligia Bojunga?



– Pra quem você está escrevendo, Carola, posso saber?


As primeiras leituras em português trouxeram uma descoberta: “Eu podia imaginar o que quisesse”.– Conta pro tio o que quer ser quando crescer, conta? As visitas se olhavam entre si e o pai fazia um brinde. “Querer ser escritora era tão estranho quanto querer ser astronauta” – os ésses de Carola têm som de xis. No início do ano letivo matricularam a menina em um colégio alemão. Falava espanhol com os irmãos, havia aprendido o português nasalado da mãe e agora o alemão. “Cada idioma vê o mundo de uma forma diferente”. E Carola também viu a escrita literária de outra maneira. Sobretudo ao ler Clarice Lispector. Formada pela PUC do Rio de Janeiro, tomou um avião para Alemanha: “Era preciso talento para ter sido jornalista”.



– Cadê o nome da rua, da cidade e do país?


“O escritor é aquele que sai e volta para contar uma história” – Carola faz afirmações como uma estátua egípcia. Ela se acostumou a desviar o caminho do mestrado para a biblioteca do Instituto Ibero-americano de Berlim: “Minha formação não começou desde cedo”. Passou cinco anos carregando a mesma lista na bolsa: 1º) Ler toda a literatura latino-americana 2º) Ler toda a literatura brasileira 3º) Ler toda a literatura alemã 4º) Voltar a ler Clarice Lispector apenas ao final. Depois de ler tudo o que podia, Carola se perguntou: “De tudo isso, o que é meu?”.



– Não seria simpático assinar com codinome? Só uma letrinha, vai?


Os livros nunca lhe diriam: “Na literatura, fazer a pergunta certa é mais interessante que dar respostas” – Carola fala “literatura” como se a apalpasse com as mãos. Mas o Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar, deu uma pista preciosa para o seu projeto literário: “Esse livro é muitos livros, mas é, sobretudo, dois livros” – dizia o prefácio. Carola se reconheceu: “Quando conto uma história, com ela vem outra”. Sua construção tem muitos detalhes. Ao contar uma história, está sempre falando sobre o fazer literário. É por isso que conta com os leitores: “Quem lê meus textos na diagonal não entende”. Seu primeiro livro foi escrito na Alemanha. A coletânea de contos Do lado de fora é uma faceta pequenada sua obra. Mas já tinha contornos bem definidos: “Fazer literatura é estar atento ao outro”.



– Oh, então o envelope era pra mim, Carola?


Abri o envelope. Dentro dele havia uma lupa.E além dela, mais um envelope que levava o título do seu primeiro romance: Toda terça. Seus narradores não são nada confiáveis. Laura engana o seu terapeuta e Javier se apresenta para uma garota alemã como um personagem do livro que está lendo. No Rio de Janeiro, Laura vai às sessões de análise todas às terças. E em Frankfurt, Javier frequenta o apartamento de Ulrike todos os dias. Inclusive às terças, quando a casa está vazia.



– Uma lupa, Carola, uma lupa!


Coloquei a lente grossa sobre o texto. Os personagens refletem uns nos outros,como num jogo de espelhos. Laura se vê através do seu analista: “Você é atraente e muito bonita, Laura, você sabe disso”. Depois vê apenas a si mesma: “É, eu sabia, como poderia pôr em dúvida?”. Os personagens circulam junto dos seus espectros. Oscilam entre a imagem da superfície espelhada e o mais secreto de cada um: “Esse Javier que habitava os meus pensamentos seria realmente o mesmo Javier que por mais de um ano havia frequentado o meu quarto nas tardes de terça?”. Os personagens nunca conseguem se ver por inteiro: “Sempre estou falando da impossibilidade de comunicação”.



– Outro envelope, Carola? O que mais tem dentro dele?


Um novo envelope! Dessa vez com o nome Flores Azuis, seu segundo romance. Dentro dele havia uma sequência de cartas. Todas endereçadas a um antigo amante e assinadas apenas com a letra A. Na história, quem as recebe é o novo inquilino do apartamento. Ao ler as intimidades dessa mulher desconhecida, ele descobre por que o casal se separou.



– Credo Carola, esta lente está imunda!


Limpei na cortina e a aproximei do texto novamente. O inquilino se vê refletido nas cartas que lê e quer ajudara mulher misteriosa: “Ela que lhe escrevia e lhe estendia a mão. Ela que o esperava”. Então decide devolver as correspondências ao verdadeiro destinatário. Mas ao tocar a campainha, o homem estranha: “É claro que sou eu. Mas essas cartas não são para mim”. Não é preciso de uma lupa para ver que o inquilino é muito diferente doamante: “Alguém tão diferente mas que me lê como eu gostaria que você me lesse”. O texto de Carola quer ultrapassar a distância que separa o leitor do escritor: “Um texto que não só explicasse as palavras, mas também guiasse a tua leitura”.



– Mais um envelope-surpresa, Carola, acertei?


Puxei o último envelope do interior: Paisagem com Dromedário é o nome do terceiro romance. Nele, uma artista se refugia numa ilha distante. Separada do namorado pelo oceano, Érika narra todos os acontecimentos à sua volta com um gravador. Ela quer construir um significado para o seu passado e para a morte de Karen. Uma estudante com quem mantinham, ela e Alex, um triângulo amoroso.



– Este troço merece mais uma limpadinha, viu?


A lente não deixa dúvida. As palavras não conseguem ser transparentes como Érika gostaria. Nem mesmo quando gravadas: “Queria que você pudesse ouvir as coisas exatamente como elas são”. Por mais que a linguagem literária se estenda sobre todoo silêncio,sua superfície nunca será lisa o bastante: “Ainda que eu não diga nada e mantenha o gravador funcionando, há sempre algo que ficará gravado”. Há ruídos, passos, vozes de outras pessoas. Ela sabe que essa comunicação perfeita é impossível: “É como se escrevêssemos com uma das mãos, e com a outra fôssemos imediatamente apagando o escrito”.



– Lamento confessar Carola, mas não há nada mais o que eu possa dizer.


Carola dobrou os papéis que estavam na sua escrivaninha. Colocou as cartas uma dentro da outra e lambeu as extremidades do envelope. Em seguida chamou o elevador, cumprimentou o porteiro e cruzou a Rua das Laranjeiras. Carola prendeu os cabelos que balançavam com o vento. Entrou pelo hall do Paradiso Hotel,apertou no 9º andar e seguiu pelo corredor até o apartamento 99. Ao abrir a porta, viu a cabeça recostada na poltrona verde-limão e uma xícara de café na mesa ao lado. Os mini-coqueiros tremeram. Ela se aproximou do leitor e tomou a lupa da sua mão:


Isto não é uma lupa, meu caro. É um espelho!



Biblioteca:Cubo de vidro suspenso por fio de nylon.Capacidade deum exemplar para cada face cúbica, de modo que todos eles sejam vistos do lado de fora.Possui seção única, a de livros essenciais:“Entre eles estão os livros de ensaio de Ricardo Píglia, Juan José Saer e Macedonio Fernández”.


Leitor ideal: Aquele que é co-autor da história.


Personagem: Caliban, de A Tempestade (William Shakespeare)