Acompanhamento: Tartelette de chocolate com champagne


Trilha sorora: That’s Entertainment! (Fred Astaire)


Entre as múltiplas virtudes de Tatiana estava a habilidade de escrever um livro. Foi por isso que Marília, a orientadora do doutorado, pediu que fizesse um romance no lugar da tese que estava escrevendo. Tatiana concordou. Mas além dos cinco anos para fazê-lo, precisaria de uma passagem para os Estados Unidos e outra para a França. Passados dois anos e meio, ela não havia sequer começado o romance. Depois de vasculhar os arquivos da Brown University por seis meses, na cidade de Providence, ela foi para Paris. Ao final do quinto ano, sentou nos fundos da biblioteca da Sorbonne, pegou uma caneta e escreveu o romance em um único gesto. Marília não acredita até hoje em como este mesmo gesto foi repetido no auditório da Puc, diante de uma banca de defesa. “Tive vontade de dar meu colar de pérolas pra essa menina” – disse ainda comovida pela demonstração inesquecível de como fazer um romance de autoficção.



Tatiana, aonde você vai? Volte para a sua mesa, por favor. Os convidados da banca estão prestes a chegar. Não vai querer preocupar a Marília mais ainda, vai? Toma, leva esse copo de água com açúcar pra ela. Mas não demora muito porque os professores estão entrando. Além disso, veio todo mundo que você gosta, não disse? Olha a Paloma, sua melhor amiga, lá nos fundos. E o seu pai está ali na segunda fileira com a mulher dele. Conferiu se todos os nomes estão nos agradecimentos? Então só mais um lembrete: não vá me abusar das metáforas, viu? E não cite nada que não seja seu sem avisar, promete? Do restante cuido eu. Assim que a Marília anunciar a defesa, você cumprimenta a banca e espera eu colocar todos os apetrechos no centro do auditório. Confere aqui comigo: tela, pincéis, cavalete e tinta a óleo. Não tenho ideia do que você quer pintar, Tatiana. Mas se você me disser, posso até posar pra você.



– Tatiana, sente ali naquela poltrona amarela e não se mova, por favor.


Tatiana Salem Levy já escrevia antes do romance A chave de casa vencer o Prêmio São Paulo de Literatura de 2008 na categoria de autor estreante. Em 2003 publicou o teórico A experiência do Fora: Blanchot, Foucault e Deleuze, como resultado da sua pesquisa de mestrado em Estudos Literários na Puc-Rio. Os primeiros contos apareceram timidamente nos anos seguintes, em coletâneas como Paralelos e 25 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira. E por mais que o caminho até uma experiência literária tenha sido indomável, a teoria se portou muito bem diante da escrita ficcional. Em A chave de casa é possível encontrar resquícios do conceito denominado “fora”, analisado por Tatiana na obra dos três pensadores franceses durante a dissertação. O espaço do não lugar e do não pertencimento – como costuma ser definido – é a mesma paisagem onde se delineia o seu romance. “As pessoas insistem em separar uma coisa da outra” – Tatiana não só mistura teoria e ficção como reforça com uma demão de verniz.



– Agora tente relaxar os ombros e erga um pouco o queixo, assim ó.


Tatiana chegou no Brasil apenas com nove meses de idade. Ela nasceu quase ao mesmo tempo que a Lei da Anistia, que em agosto de 1979 reabria as portas do Brasil para os opositores do regime militar. Os pais estavam exilados em Lisboa há três anos e aproveitaram o bom-humor de João Figueiredo para voltar ao Rio de Janeiro. Ao desembarcarem no Galeão, a família foi seguida por jornalistas até a casa em Ipanema. Conseguiram uma foto do casal e do bebê em frente à biblioteca vazia. Foi preciso dois anos para que a estante estivesse novamente preenchida e o choro da irmãzinha Dina espantasse o silêncio da casa. Tudo parecia estar no seu lugar, menos o barulho dos móveis que acordou Tatiana naquela manhã – Mãe, pra onde o papai tá levando os livros dele?



– Isso, assim… o mais natural e espontâneo que você conseguir, Tatiana.


Os romances e as biografias ficaram com a mãe. Já os livros de história, filosofia e religião foram para o novo apartamento do pai, em Laranjeiras. “De literatura, ele só tinha os clássicos” – Tatiana comprimiu os olhos como se fosse Velázquez pintando Las Meninas. E arrematou: “Então o buraco na estante não foi tão grande assim”. Como filha mais velha, teve que se revezar entre as duas casas e a escola: “A típica escola alternativa da classe média intelectual da Zona Sul do Rio de Janeiro”. As turmas tinham apenas nove coleguinhas, não havia orações antes do lanche e se podia escolher o livro que quisesse da biblioteca. Ainda assim, Tatiana preferia ficar com a mãe. Grampeava um maço de folhas igual a ela e escrevia textos para o editor do Estadão.



– Nem um sorrisinho? Assim vou ser obrigado a aplicar uma expressão Mona Lisa no seu retrato.


Quando completou dez anos, Tatiana ganhou 30 centímetros em cada uma das prateleiras de livros. Na casa do pai, ao lado dos clássicos, colocou O menino no espelho e O menino maluquinho. A coleção de Ana Maria Machado e Ligia Bojunga Nunes ficou perto dos romances da mãe. Mas a grande conquista veio ao descobrir Clarice Lispector. E ninguém sou eu, e ninguém é você. Esta é a solidão – Tatiana lia em voz alta enquanto o pai montava a sua própria estante no quarto. A seção inaugural incluiu Laços de Família, A paixão Segundo G.H e Água Viva. “Morria de ciúmes quando via alguém lendo um livro da Clarice no metrô ou no ônibus” – Tatiana jamais dividiria a sua biblioteca com alguém.



– Você quer que eu aumente ou diminua algo em você? Algum sinal de nascença? Alguma marca do tempo? Nadinha?


Para chegar na Universidade Federal do Rio de Janeiro, Tatiana passou a tomar dois ônibus até a ilha do Fundão. O campus de Letras tinha uma paisagem diferente da Zona Sul. As salas de aula tinham nove alunos apenas na primeira fileira e não se podia pegar o livro que quisesse na biblioteca. Uma parte da turma gostava só de literatura, a outra de linguística. “Eles vivem em estantes diferentes” – Tatiana medita do alto do seu pescoço, como se estivesse em um quadro de Modigliani. E ao falar sobre uma seção bastante restrita – “a dos alunos que escreviam” – os olhos escuros e as sobrancelhas entediadas parecem ter sido feitos pelo mesmo pintor: “Todos achavam que autor bom era autor morto”.



– Agora que você é uma escritora, bem que a gente podia fazer o seu retrato num lugar melhorzinho, né?


“O curso de Letras não dá valor para a criação”. A academia oprimiu a escrita criativa de Tatiana por anos. Mas durante o doutorado decidiu colocar um plano em prática. Dobrou o bilhete e passou para Paloma durante a aula. P.S.: Comecei a escrever um romance. “A academia acha que o escritor escreve só por inspiração, que não dá trabalho” – o sotaque de Tatiana é ondulado como a sua vasta massa capilar. Ela queria estar envolvida dos pés à cabeça no seu projeto, cujo tema inicial era a herança. E ao remexer nos arquivos da família, se perguntou: “Mas, afinal, quem sou eu?”. Tatiana se referia ao fato de ser neta de imigrantes descendentes de judeus turcos e filha de exilados em Portugal. Além de investigar os antepassados, visitou duas universidades estrangeiras e percorreu Turquia e Portugal em busca de vestígios do passado. A ficção se aproximou tanto da tese que foi fundamental substituí-la para assumir a vocação de escritora. “O romance também é uma forma de saber” – Tatiana defendeu diante da banca de doutorado e, em 2008, depois de publicar A chave de casa, teve que repetir à imprensa: “Eu venci o prêmio com um romance, não uma tese”.



– Tudo bem, Tatiana, tudo bem. Vou tentar ser o mais realista possível.


Enquanto Tatiana sorria para a banca de doutores, os materiais de pintura foram colocados no centro do auditório. Diante da tela em branco, somente ela poderia ver o que estava pintando. “Meu romance não é apenas um autorretrato” – Tatiana alternava o olhar entre a tela e os convidados à sua frente. Os membros da academia, que enxergavam apenas as costas do cavalete, estavam tensos. “Eles ficaram tão presos pela ficção de Tatiana que se sentiram parte do quadro a ser pintado” – comentou Marília.



– Tatiana, mas como é que você vai pintar você mesma sem se ver? Tem certeza que não vai precisar de um espelho?


O gênero utilizado pela escritora, a autoficção, apaga propositalmente os limites entre o autor, o narrador e a personagem. “A viagem que fiz, os meus diários, as cartas e as fotografias de família, tudo foi incorporado pela ficção”. Tatiana tracejou a primeira cena com carvão sobre a superfície branca. No esboço, se pode ver uma personagem que não consegue se levantar da cama. Ela segura uma chave na mão, que ganhou do avô para encontrar a antiga casa onde vivia, em Esmirna. Além da autora, ninguém mais sabe o motivo da paralisia que a mantém fechada no quarto.



– Ah, entendi, então você vai pintar apenas de memória, é isso?


Tatiana utilizou três camadas de tinta para compor narrativas possíveis ao sofrimento da personagem. Na primeira, a tinta a óleo colore a história do avô que veio para o Brasil aos 20 anos. Com variações sutis nos tons, o imigrante tem uma reação idêntica à personagem central ao perder a mulher que amava. Depois de um mês sem sair da cama, o médico tenta explicar: “Deve ser algum mal da cabeça, porque o corpo funciona perfeitamente”. A segunda demão mancha o pesar desta mesma personagem com a morte mãe. A filha quase desanda com a sua ausência, não fosse a voz que a mantém viva: “Não quero ser culpada pela sua paralisia. Minha mão continua aqui, estendida, mas não posso colaborar com essa loucura na qual você insiste”. E por fim, a última revestida cria textura suficiente para mostrar que o antigo amor também pode ter sido o culpado da sua imobilidade: “Você me apertou os pulsos, segurando-os com uma única mão. Assustada, gritei: solte-me! Você não me soltou. Com a ponta fina do lápis que encontrou ao seu lado me rasgou a pele do braço”.



– E se você ficar diferente do que é na realidade, Tatiana?


“Não se trata de uma volta às origens, mas de uma invenção do presente” – Tatiana treinou sorrisos-paisagem caso os leitores perguntem se tudo o que está no livro aconteceu. Apesar de diluir fatos da própria vida, são as camadas de tinta que deram forma à obra. “Quando os meus antepassados se tornam personagens, sou eu quem decide o caminho deles”. Antes que alguém insistisse nas semelhanças entre Tatiana Salem Levy e a personagem-narradora do livro, ela citou o trecho-chave da obra: “Conto (crio) essa história para dar sentido à imobilidade”.



– Se eu fosse você, Tatiana, esperaria a tinta secar antes de mostrar pra todo mundo.


“A tinta a óleo permite que as interpretações sejam retocadas todo o processo de leitura”. Tatiana nunca mais precisou defender um romance diante de bancas acadêmicas. Porém, no segundo livro, intitulado Dois Rios, ela elaborou outra maneira convincente de explicar o seu romance à imprensa. “Eles queriam saber quanto tempo levei pra escrever o livro” – Tatiana amolece os ombros como os relógios de Dalí. Assim como na história do irmão e da irmã gêmea que se apaixonam pela mesma mulher, a escritora convocou jornalistas e críticos até uma pequena ilha no sul da França. Lá, providenciou uma casa de pescadores para conceder a única entrevista coletiva sobre o lançamento. Foi então que coletou os relógios dos convidados e, ao final de um dia, convenceu a todos que o tempo da escrita não poderia ser contado: “A literatura não tem nada a ver com a soma do relógio”.



– Agora fico até mais tranquilo pra mostrar o seu retrato, Tatiana.


Mas antes que você tire o pano, gostaria de deixar claro: não sou um pintor, Tatiana. Apenas achei que seria a forma ideal de fazer o seu perfil. Então tenho certeza que você não vai se importar com as mudanças que eu fiz no seu retrato. As pérolas da Marília ficaram deslumbrantes no seu pescoço. Pode dizer o que for, Tatiana, mas que está convincente, está.


– E qual vai ser o título da nossa obra, hein Tatiana?



Biblioteca: Prateleiras dobráveis com capacidade para formar até três nichos separados. Facilmente acoplada em diferentes cômodos da casa: na sala de jantar estão os romances e as biografias que herdou da mãe. Na sala de estar ficam os livros de história e filosofia que ganhou do pai. E no quarto, perto da cabeceira, mantém as ficções e autobiografias preferidas.


Leitor ideal: Aquele que não existe.


Personagem: Madame Bovary, de Madame Bovary (Gustave Flaubert)





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