veronica


Acompanhamento: Pato laqueado com saquê


Trilha sonora: Vamos comer Caetano (Adriana Calcanhoto)



Uma senhora com estampas tropicais entrou bufando na livraria. Ela não parecia ter voltado de férias do Havaí. Numa das mãos ela segurava a coleira do São Bernardo, na outra um livro preto de título Os anões. Ninguém notou a presença dela. Os funcionários atendiam os seus clientes. Os clientes estavam indecisos. Ela inflou os pulmões, a caixa torácica vergou as palmeiras da camisa e por fim gritou – Isso aqui não é literatura! Os funcionários largaram os seus clientes. Os clientes não perderam por ver o escândalo, além dos motivos praianos de péssimo gosto. A senhora caminhou em direção ao caixa. As palmeiras tremiam, o cão de guarda rosnava para os clientes e os seus funcionários, que acompanhavam a ofensiva. A senhora largou o livro sobre o balcão – Quero falar com quem escreveu isso! A atendente abriu a gaveta e retirou uma folha de papel. Em seguida anotou o telefone e deslizou sobre o mármore. A senhora pegou o número como se estivesse agarrando um bichano pela nuca. Colocou no bolso da camisa, deu um tapinha, soprou a franja dos olhos e se encaminhou para a saída. Enquanto os funcionários e os seus clientes observavam as palmeiras sumirem no horizonte, eu me aproximei em direção à mocinha do caixa:



– Você me dá uma folha igual a dela, moça?”


Lá na confeitaria da rua Marquês de Itu com a Martim Francisco, na terça-feira, às três horas, combinado? – Combinado!, disse a voz grossa do outro lado da linha. Na semana seguinte, um táxi encostou na esquina e um guarda-chuva preto saiu pela porta. Uma perna de quase um metro apareceu, depois a outra. Ela usava um sobretudo bege e um quimono azul por baixo. Não havia dúvidas, era Veronica Stigger. “Poderia ter vindo a pé, não fosse a chuva”. Veronica mora no centro de São Paulo, na avenida São Luís. Mas o sotaque é de quem nasceu em Porto Alegre. “O sul é a região do Brasil que menos se lê, sabia?” – Veronica tem uma história em potencial para cada comentário. Quando aprendeu a ler, por exemplo, os pais montavam guarda – Veronica, cadê o livro? “Eu preferia quando minha vó ou a minha mãe liam as Reinações de narizinho pra mim”. Os dois eram jornalistas e devoravam pencas de livros. “Se meus pais saíssem de lá, o índice de leitura ia cair mais ainda” – Veronica fica com dois palitinhos nos olhos quando ri, mas a sua risada alarga o sorriso de um canto a outro do rosto.



– Veronica, eu peço que você fique em posição de sentido naquele canto enquanto eu dobro essa folha na metade, ok?


Veronica se escondia atrás da biblioteca com a sua vitrola laranja. Colocava o volume mínimo e lia só de ouvido A formiguinha e a neve. Era descoberta apenas quando a ouviam cantar – Oh sol, que derrete a neve, desprende o meu pé? Veronica, quando era uma formiga, queria ser jornalista, astronauta, cientista ou professora. Nunca escritora. Mas antes de tudo veio a ser jornalista. E na faculdade, no primeiro semestre do curso, conheceu Eduardo, igual aos seus pais quando se conheceram. “Havia uma greve imensa, então a gente começou a namorar” – Veronica pode fechar a mão em conchinha em frente à boca, mas nunca que conseguiria rir como uma gueixa. A essa altura o namoro tem vinte e um anos. Se formaram, pegaram o canudo e foram trabalhar. Os dois se aventuraram no Segundo Caderno, do jornal Zero Hora, em Porto Alegre. Veronica pegava um fotógrafo e saía para a rua fazer matérias. Ao voltar para a redação, o limite de caracteres a aborrecia. Quanto ao Eduardo, ele detestava escrever tudo no presente do indicativo.



– Agora eu vou dobrar a base do papel novamente e ele vai virar um triângulo, tchanam! Isso vai ser moleza!


Veronica e Eduardo largaram o jornalismo e começaram o mestrado. Feliz de Veronica, que tinha um número de caracteres ilimitado. Quanto ao Eduardo, se as regras da ABNT incomodavam, o uso indiscriminado de tempos verbais o animava. Terminado o mestrado, foram para o doutorado. Na primeira vez em São Paulo, Veronica foi fisgada ao pisar na Liberdade. Ficou vidrada com as lanternas vermelhas da rua, os patos laqueados e os mercados japoneses. “Em Porto Alegre jamais encontraria seis tipos de mangas no supermercado” – Veronica criaria um ideograma para cada tipo de fruta se isso deixasse o argumento mais convincente. Alugaram um apartamento em Perdizes, pouco maior que um cubículo. Além do casal, um armário foi encaixado na sala para guardar a pesquisa acadêmica sobre mitos e ritos na modernidade. Como único movimento possível dentro do imóvel, as contínuas reflexões levaram Veronica a formar uma ideia: “Eu queria escrever um livro de mitologias inventadas”. Sentada na mesma posição durante três dias, fez um conto e mostrou para um amigo na primeira saída que fez à rua: “Ele faz parte do livro que irá se chamar O trágico e outras comédias”.



– Acho que isso é um pouco mais complicado do que eu imaginava, Veronica.


No momento da revelação, o livro tinha apenas sete mil caracteres. A Chuva, o primeiro de todos os contos, começava como uma martelada no gongo: “Imagina se um dia começasse a chover caralhos”. O interesse da editora Angelus Novus foi despertado e quiseram publicar imediatamente. Foi então que um livro inteiro, com 17 contos e mais de 50 mil caracteres, se fez em apenas um mês. Veronica, imóvel no centro do seu quarto-sala, se imaginava ao lado daquela chapa de metal que havia inspirado a primeira ficção. A cada nova história que começava, dava um golpe com toda a sua força: “Moacir tinha câncer no cu e um gato verde”. As paredes abafavam o estrondo e ela criava a próxima: “Janice vivia enamorada de seu umbigo”. O espaço foi ficando menor e mais ruidoso com as últimas tentativas: “Mário Sérgio sofria de um mal desagradável”. Antes de terminar o mês, Eduardo decidiu se mudar para o banheiro.



– Vem cá e dá um olhada: essa ponta não era pra ficar do lado contrário?

Agora pode destapar os ouvidos!, Veronica brincava com Eduardo ao final de cada conto. As primeiras frases dos textos largam o personagem em um momento da sua vida e com um dilema nas mãos. Eles vivem dentro do seu próprio absurdo, como num biscoito da sorte. Suas ações terão sentido apenas dentro do pacotinho: não importa se o gato de Moacir é verde, se Janice entra no próprio umbigo, se Mário Sérgio infla quando fala com estranhos. Os estranhamentos são essenciais e devem ser breves. “O tempo máximo de uma gongada”. Quando o silêncio voltou a reinar no cômodo único da casa, Veronica inventou o próprio provérbio – “Se o estranhamento durar muito tempo, ele passa a ser familiar”. E o que é familiar, parece normal. “Arigatô!” – Eduardo gritou do banheiro.



Veronica, não me leve a mal, mas agora você já está me desconcentrando.


Veronica e Eduardo decidiram passar um tempo na Itália para se entreter com mais caracteres. A arquitetura local oferecia apartamentos amplos. Em dois anos de Roma, com um apartamento de três cômodos, foi possível vivenciar estranhamentos de outra ordem. “Gran cabaret era o cartaz de uma festa que vi na rua” – contou Veronica, desacostumada com a vida ao ar livre. E o Gran cabaret demenzial foi o seu segundo livro, publicado dois anos depois. A festa imitava uma noitada dadaísta. Havia número de dança, recital de poemas, teatro e leitura de manifestos. Naquele momento Veronica pesquisava justamente as manifestações de vanguarda: além dos dadás, os futuristas e os surrealistas. Eis que a sua segunda obra viraria um autêntico cabaret. “Em vez de um índice, o livro tem um programa” – Veronica explica o seu trabalho como um passo-a-passo de origâmis. De volta ao Brasil, a segunda edição de O Trágico e outras comédias foi lançada e um tapete de críticas favoráveis foi estendido.



– Tudo bem, tudo bem. Vou desdobrar tudo e começar de novo. Você pode até dar palpites, mas sou eu que vou fazer, combinado?


Para erguer o cabaret, Veronica escolheu um narrador discreto para ajudá-la e alugou um galpão no centro de São Paulo. O espaço tinha apenas um tablado para as encenações e algumas cadeiras de praia. Na porta, Veronica oferecia uma lanterna a cada um dos convidados. Quando todos estavam sentados, apagava a luz. Ela orienta seus leitores a mirarem o foco de luz no gesto, apenas o gesto da narrativa. “O procedimento é o mesmo da arte moderna e contemporânea”, disse iluminando o próprio rosto na escuridão. Para a produção do espetáculo, Veronica encontrou tudo o que precisava na rua. Afanou uma placa de direção, anotou ofertas no caderninho vermelho, arrancou anúncios de prostitutas, gravou palestras em auditórios de conferências. A cada número, ela e o seu ajudante, vestidos de preto, colocavam a atração seguinte no palco. “Aquele não é o Eduardo?” – cochichou um dos espectadores que conhecia o casal. – Agora podem ligar as lanternas! E todos se admiravam com o espetáculo seguinte. A Festa Internacional Literária de Paraty tentou alugar o espaço para edição de 2007, mas o Gran cabaret demenzial já havia encerrado a temporada. Então chamaram Veronica para se apresentar em Paraty.



Ah, você tinha razão Veronica! Agora sim tá ficando parecido!


Com o terceiro livro, intitulado Os anões, Veronica armou uma estrutura mais extravagante. Dessa vez, alugou uma quitinete perto do metrô República. No único cômodo, suspendeu os vinte e um novos contos com fios de nylon, um ao lado do outro. Reservou uma cadeira para os leitores e uma câmera em frente a cada um dos textos. “Você olha pelo buraquinho da câmera, ajusta o zoom e o foco”. Pronto: os pequenos textos se exibem para as objetivas feito silenciosos origâmis. Essas diminutas dobraduras têm o poder de mimetizar o formato de curtas-metragens, notícias de jornal, anúncios, bilhetes, documento de cartório. “Graças ao enquadramento, o espectador nem percebe o teto sujo e a fita crepe que segura os meus pequenos”.



– Obrigado pela gentileza, mas daqui pra frente eu continuo com as minhas próprias dobras.


Agora podem trocar!, Veronica anuncia de tempo em tempo. E os leitores passam para a cadeira ao lado. A cada sequência, é possível ver uma forma completamente nova. Na cadeira 21, por exemplo, se vê o bilhete da Pati avisando a Bia que o seu casamento acabou. “É como se você entrasse na cozinha da Bia e enxergasse o papel escrito sobre a mesa”, descreveu um dos leitores. “São histórias em pontencial”, emenda a autora. O leitor começa a se perguntar: quem é Bia? Por que o casamento da Pati acabou? Por outro lado, alguns leitores acusaram a escritora de manter atitudes politicamente incorretas nos contos. Em um deles, Verônica ajuda a espancar um casal de anões em uma confeitaria, só porque eles eram estranhos. Em outro, Verônica explode os próprios miolos. “Só sei que não posso mais me suicidar, senão o meu conto estaria arruinado”, ela retira vagarosamente o chapéu oriental, como se o seu gesto fosse mais importante do que a resposta dada ao leitor. E por fim, o mais polêmico dos textos, na cadeira 57, cria a prova real de que Verônica Stigger é um homem. “Os efeitos são tão reais que eu não duvidaria”, arriscou um dos críticos.



Pronto! Olhando assim de pertinho não parece com você. Mas vem aqui nos fundos pra ver como está parecida, vem!


Ao final da tarde, Veronica percebeu que não seria mais tão fácil me impressionar com as suas histórias. Nem todo o sangue e o açúcar derramados sobre os corpinhos do casal de anões me escadalizaria mais. Como última tentativa, ela escolheu uma de suas histórias mais recentes: “Uma leitora de meia-idade entrou na livraria aos berros dizendo que o livro que comprara não era literatura”. Vendo que o estranhamento não funcionava, Veronica murchou os pulmões e se aproximou para a despedida. Como se eu fosse um bichano, deu um abraço com tapinhas nas costas. Pegou a dobradura que eu estava fazendo durante a entrevista e guardou no bolso. Em seguida tomou o guarda-chuva e se encaminhou para a saída. De longe fiquei vendo o seu quimono azul e o chapéu oriental diminuírem no horizonte. “Se eu chamasse a Veronica de estranha, isso sim é que não seria estranho”, comentei com a mocinha do caixa. E ela, sem dúvida, deve ter me achado estranho.


Não disse que os olhos e a boca estavam igualzinhos? E em tamanho real, Veronica, tamanho real! Aliás, haja papel, viu?



Biblioteca: Área total de 200m2 com quarto comprido e pé direito altíssimo. Uma estante caída por causa do peso. “Livros de arte são muito pesados, tenho alguns com quatro ou cinco quilos, eles ocupam boa parte do espaço.” Inclui seções de antropologia, teatro, ficção, filosofia e psicanálise. No quarto comprido ao lado, fica a biblioteca do Eduardo.


Personagem: Juan Dahlmann, de El Sur (Jorge Luis Borges)


Leitor ideal: Aquele que lê com os olhos livres.