marcelino


Acompanhamento: Angu com cerveja preta


Trilha sonora: Vibração da carne (Tom Zé)



Hoje eu trago aqui o Marcelino. Marcelino Freire. Chega de palmas, por favor. Você aí de xadrez, calminha, ele já está chegando. O Marcelino dispensaria apresentação. Todo mundo conhece ou já viu. Foi o Marcelino que inventou a Balada Literária, em 2006. A literatura andava chata e solene demais na Vila Madalena. Enquanto ele não sai lá de trás, eu posso explicar isso melhor. Você aí de verde, só mais um segundo. Ele faz saraus, shows e palestras. Chama escritores nacionais e internacionais para conversar com os leitores. Eu mesmo conheci o Caetano Veloso por causa do Marcelino. Só não toquei nos cabelos dele. Mas ouvir a voz, ouvi. O Marcelino é amigo de todos os escritores do Brasil. Eu mesmo acompanhei o Marcelino no lançamento da Angélica Freitas, pouco antes da nossa entrevista. Só não tomei espumante com ela. Mas café, tim tim! O Marcelino também dá oficinas de escrita e não aguenta ver um bom escritor sem livro. Eu mesmo fui assistir uma aula e deixei o meu romance nas mãos dele. O Marcelino costuma dizer que a literatura precisa aprender a se misturar com o teatro, com a música e com a pintura. E depois ir para o bar. Não é à toa que o seu nome está na Antologia Bêbada. E um dos seus contos n’Os Transgressores. Ele mesmo me garantiu que uma boa entrevista é mais apropriada no boteco da esquina.



Marcelino, o salão já está cheio, Marcelino. Coloquei a garota de xadrez e o rapaz de verde para entreter o público. Já falei tudo o que podia sobre você. Só não contei a parte de quando nos conhecemos. Naquele dia acordei de ressaca, Marcelino. Minha caixa craniana estava vazia, parecia o sertão de onde você veio. Bem que a Andréa me avisou. O Mutarelli também. Sem contar os escritores de edições passadas que nem vou dizer. Vem aqui, vem. Deixa eu arrumar essa gola. Tirou o chiclete fora? Me dá um agudo. Isso. Agora um grave. O cabelo está um brilho, não se preocupe. Respira, respira.



Merde pra você Marcelino, merde!


Marcelino chegou por último, depois de oito irmãos. A mãe teve 14 barrigas diferentes. E aquela última, dura e bicuda, ela achava que não vingaria. Quando o choro reverberou no quarto, os irmãos correram para a cozinha esconder os copinhos de alumínio. – E se a mãe não forrar de açúcar pela manhã cedinho?E se aumentar a fila no curral pro pai tirar o leite? O mais velho estufou o peito e colocou os cantadores de cordel no último volume. No meio do duelo, a mãe teve a visão – Sertânia há de ser pequena pr’esses meninos, Jesus!



Marcelino, dá um passinho pra frente, sim? O rapaz quer mudar o cenário.


Trotaram até a Bahia, em Paulo Afonso. A cidade era cercada pelo rio São Francisco. A mãe, quando viu seus meninos apertados naquela ilha, teve outra visão. – Mãe, chegamos em Rasif, foi? Foi sim, Marcelino. Recife tem horizonte para todos os lados. À noite, a mãe enchia as canecas de angu enquanto assistiam Avenida São Paulo. Na minissérie, Antônio Fagundes fazia um tipão salafrário que sonhava comandar os cofres da avenida mais importante da capital. Enquanto o angu esfriava, Marcelino teve a sua primeira visão.



Luzes no Marcelino, luzes por favor!


“Eu queria ser ator” – Marcelino deslizou a mão pela barba atapetada. Procurou aulas de teatro. Interpretava e escrevia roteiros. Mais tarde se aproximou de um grupo de poesia. Assim que leu Manuel Bandeira, teve a segunda visão: “Quis ser tuberculoso igualzinho ele”. Tossia pelas ruas, mas ninguém percebia. Enquanto melhorava as golfadas, tentou uma vaga de revisor num banco da cidade. Também entrou na faculdade de Letras. “De repente, todo mundo parecia preocupado” – ele diminuiu o volume da voz e olhou para os lados.



Marcelino, solte uns uivos aí pro suspense, vai?


“Era o Plano Cruzado” – ele riu como se tivesse um ventríloquo no colo. Ninguém sabia se cobrava dívidas ou se pagava contas. Todos corriam atrás da tabelinha com menos zeros no dinheiro. Uma leva de funcionários foi cortada do banco. “Com Recife parado, só me restava ir pra Avenida Paulista” – Marcelino adora frases ao estilo Era uma vez. E era uma agência de publicidade na Paulista, onde conseguiu a vaga de revisor. Com as frases e os anúncios que chegavam na sua mesa, criou uma sequência de pequenos contos. Manipulados e impressos no escritório, saíram em livro. O eraOdito é proverbial como Marcelino: “O que tem num texto curto pode ter em mil páginas”.



Marcelino, seu agudo está no ponto, Marcelino!


Da Paulista sacolejava direto para o apartamento na zona leste. Na geladeira, só leite e cerveja. Na estante, edições de capa dura do Círculo do Livro. João Cabral de Melo Neto, Graciliano Ramos, Clarice Lispector. Em posição de sentido, no meio do quarto, lia os contos em voz alta. “Começo com um som, uma frase ou uma palavra”. Elas reverberavam na parede. A história se improvisa. A narrativa sai cantarolada. Cada som é rebatido com uma rima: “Descobri que escrevia igual cordel aqui em São Paulo”. Com os ecos, Marcelino acertava o tom e conferia o ritmo de cada conto. “Canto, eu costumo chamar de canto” – corrigiu. Intrigado com a cantoria, o vizinho do andar de cima bateu na porta: “O crítico literário João Alexandre Barbosa indicou uma editora para o Angu de sangue e escreveu o prefácio do livro”.



Marcelino, abra mais essa cortina, Marcelino!


Todas as cadeiras estavam ocupadas. Aqueles que sentaram mais à frente sentiam a respiração do autor. Marcelino se preparava para encarnar os dezessete contos de Angu de sangue. E utilizaria apenas as cordas vocais. Suas personagens esbravejam na cara do leitor. Não há narrador para defender ninguém. O muque dessas figuras representadas está na voz. Sua fala é tão corpulenta que os espectadores preferiram fechar os olhos. A dicção de Marcelino era capaz de formar as diferentes caras. Todos aplaudiram de pé ao ouvir Muribeca. Uma mulher que não quer abandonar o lixão – “Esse negócio de prometer casa que a gente não pode pagar é balela, conversa pra boi morto. Eles jogam a gente é num esgoto”. O ato seguinte, da moça que acusa a própria irmã, foi vaiado – “Ela é puta, pai, puta, puta, puta, puta”. E da situação do bêbado, todos riram – “Bêba. Do. Até cair. Des. Falecer. Acordar no puteiro”. Marcelino enfim incorporou fundo a voz da personagem principal. Ameaçado por um bandido que entra no seu carro, ele dirige até a casa da namorada para entregar o resto do dinheiro. Ao chegarem no apartamento dela os móveis estavam revirados. E ela já estava morta. Então foi o próprio refém que ameaçou o assaltante – “Atira, porra, atira, porra, atira!”.



A saída de emergência é por ali Marcelino, por ali!


Pá-pá! A ala dos fundos se apavorou com os tiros. De longe, a arma que o autor imitava com as próprias mãos, parecia real. Marcelino interrompeu o ato: “A literatura tem colete à prova de balas”. Se estes personagens estão nas ruas é preciso denunciá-los, chamar a polícia, tirar da desgraça. Marcelino, você não vai tomar uma atitude, Marcelino? O autor engrossou a voz: “Minha literatura não veio para denunciar ninguém”.



Pronto Marcelino, já tranquei todas as portas!


“Eu escrevo o que leio na rua” – Marcelino declarou no teatro vazio. Sua escrita não quer faxinar a realidade: “Eu tô me fudendo pra gramática”. Marcelino também não gosta de moral da história. Gosta, sim, de palavrões. Em Balé Ralé, publicado em 2003, os personagens continuam a engatilhar as palavras. A mãe que se desfaz dos filhos se chama Darluz: “Dei José, dei Antônio, Maria, dei. Daria. Dou. Quantos vierem”. Com Contos Negreiros, de 2005, Marcelino ganhou uma moldura do Prêmio Jabuti de Literatura. Suas personagens são reais, como os Trabalhadores do Brasil. Mas também poderiam subir no palco: Zumbi vende carne, Odé trabalha de segurança, Ossonhe faz sexo na praça do Pelô. Até mesmo em Rasif: mar que arrebenta, de 2008, o fim dos dias é uma criação do verbo de Marcelino. Em um dos contos, por exemplo, os índios Tupinambás tomam o Teatro Amazonas.



– E agora Marcelino, qual é o próximo ato?


Os contos de Marcelino têm precisado de mais espaço no tablado. As cantorias ficaram mais extensas no seu livro mais recente, Amar é crime. Para poupar as cordas vocais, o autor fechou sua maior publicação com trinta microcontos. “Para ler no intervalo da novela” – sugeriu. Mas agora a novela já acabou, Marcelino. E os contos também. Vou guardar lugar aqui na fileira da frente. Até o seu primeiro romance chegar.


E esse gogó vai aguentar? Vem cá, deixa eu ver, deixa?



Biblioteca: Estilo oratório, com revestimento de azulejos. Base decorada com pisca-pisca, souvenirs de viagem, foto de Dona Carminha e uma Iemanjá de cada lado. “Minha seção favorita é a de raridades”. São livros comprados em sebos, com dedicatória para leitores desconhecidos.


Personagem: Macabaleia. Metade Macabéa, de A hora da estrela (Clarice Lispector) e metade Baleia, de Vidas Secas (Graciliano Ramos)

Leitor ideal: Aquele que não tem cabresto.