lisias


Acompanhamento: Café espresso com rosquinhas e marshmallows


Trilha sonora: Paris, Texas (Ry Cooder)



Ricardo, vim para o lançamento do seu livro, Ricardo.


O livro O céu dos suicidas, do Ricardo Lísias, foi lançado em abril, numa quinta-feira à noite. Quando entrei na Livraria da Vila, não havia ninguém. Esperei que os convidados se juntassem pelos cantos e atacassem a bandeja de vinho. Só então me aproximei da mesa das dedicatórias e disse que havia vindo para o lançamento do seu livro. Fiquei com medo de parecer um dos personagens dele. Os personagens do Ricardo são desajustados e sofrem dos nervos. O protagonista de O céu dos suicidas, por exemplo, foi até Beirute jurando que o avô era um terrorista, só porque ele mantinha correspondência com alguns sujeitos do Oriente Médio. Tirei um a um os livros da mochila e fui colocando sobre a mesa. Ricardo passou o olho demoradamente na pilha de sua autoria. Baixou os olhos e começou a escrever as dedicatórias uma a uma: no Cobertor de Estrelas, em Anna O. e outras novelas, no Duas Praças, O livro dos Mandarins e o mais recente deles, O céu dos suicidas. A fila de convidados foi aumentando e as pessoas se avolumavam para ver do que se tratava a demora. O segurança se moveu como um caranguejo de dois metros para o nosso lado – “Ricardo, quer que eu tire ele daqui, Ricardo?” O escritor deu a última canetada e deslizou a torre de romances na minha direção.



Ricardo, tenho medo de parecer um dos seus personagens. Mas preciso te entrevistar, Ricardo.


Ricardo chegou com 15 minutos de antecedência no ruidoso café da Antonio Carlos. Subiu o primeiro lance de escadas e anunciou a própria chegada, de agasalho esportivo e mochila. Tinha aproveitado o caminho para ir ao sapateiro, depois entrou em um sebo para fazer hora. Como estava mais adiantado do que imaginava, decidiu chegar mais cedo. Apertou minha mão e sentou. Ele usava óculos, como se fosse Wim Wenders atrás de uma câmera.



Moça, traz um café pra mim e pro Ricardo, moça.


O avô dele era professor de inglês e a mãe, além de professora, era diretora. “Venho de uma clásse média-média, nem alta nem baixa, mais ou menos ilustrada”, ele tentou se definir. A mãe do Ricardo soube exatamente quais livros escolher, claro, eram os mesmos da biblioteca dela e do avô inglês. A cada livro terminado, ficavam os dois em discussão diante da estante. O avô em roupão e a mãe com as batatas queimando no forno – “Toma, Ricardo”. Davam a ele os clássicos infantis. Lia Alexandre Dumas com marshmallows e Monteiro Lobato com rosquinhas. Isso era costume de uma família de imigrantes, que acumulava livros e diplomas, ao invés de dinheiro embaixo do colchão. Ricardo, como os dois irmãos, começou uma carreira na universidade. Fez mestrado e doutorado em literatura. Por conta disso deixou São Paulo e foi para Campinas estudar livros de adulto, que não eram tão bons sem os paparicos de casa. Arranjou uma bolsa de iniciação científica e durante as férias ficava detido por lá. Campinas era um tédio, inverno duro, lojas fechando cedo, nada para fazer, um horror. Nos primeiros dias de junho, enquanto os amigos voltavam para São Paulo, ele sentou para escrever. A república onde ficava era ele e mais ninguém. O número de capítulos do seu primeiro livro é igual à quantidade de dias dessa primeira experiência de escrita: vinte e seis. Escreveu uma lauda por dia. Ao terminar, esqueceu o texto no refeitório, entre as batatas e as rosquinhas de desconhecidos. A república já era ele e um batalhão de volta às aulas. Um amigo, estudante de Letras, leu aquilo tudo – “Ricardossantíssimo, você precisa publicar isso!” Enviou o material para uma editora e, meses depois, Ricardo recebeu um telefonema durante o jantar – “Ricardo, queremos publicar, Ricardo.” “Ricardo?” “Está tudo bem?” “Ricardo de Deus, que barulho é esse, Ricardo?” Dois invernos depois publicaram o Cobertor de Estrelas, um livro que dá o tom da sua literatura. Ao tomar o olhar de uma criança e descrever sua vida nas ruas, Lísias antecipa o seu projeto de escrita – “Fazer textos em que haja uma mudança formal, mas que lide com questões permanentes”. O enredo poderia parecer gasto, mas a forma de narrar dá corpo ao romance. A construção da dicção do personagem – o menino – é uma característica que ganha força nos trabalhos seguintes. Sua escrita, a cada novo enredo, performa de uma maneira diferente. Sua linguagem é feita por uma equipe de mímicos viajantes – sem nomes, caras brancas, todos em preto. Em cada lugar que pisam, esses homenzinhos torcem os corpos, fazendo uma imitação do que veem ao seu redor. A preocupação permanente nos projetos de Lísias são as poses – elas devem ser quase invisíveis. O texto curto que vem logo depois, intitulado Capuz, foi publicado em edição de bolso e reeditado mais tarde em Anna O. e outras novelas. Nesse livro, um personagem-narrador conta suas impressões depois de ter sido jogado numa sala com um capuz. A chegada de outro prisioneiro salvaria o protagonista da loucura, não fosse o visitante um delirio seu. A loucura deforma as falas do personagem, que iniciam como uma conversa clara entre os dois encurralados, e aos poucos se invertem, embaralham e se dissolvem no auge da perturbação do protagonista. Ricardo Lísias teve uma recepção boa da crítica. Abandonou a carreira acadêmica e as únicas pesquisas que faz são para os projetos de ficção. Ocupa todas as manhãs com a escrita. Ele mantém uma programação geral do livro que está escrevendo, além de fazer cronogramas diários. Ao terminar um dia de produção, planeja o dia seguinte. Senta às oito e não larga a caneta antes do meio-dia. E faz isso há dez anos. São exercícios: contos, colagem de textos, críticas secretas, entrevistas com ele mesmo. Mas não aproveita tudo o que escreve. Ficou tres anos sem publicar nada, entre Capuz e Dos Nervos. Essa última novela possui duas histórias paralelas, a de uma professora atormentada pelos próprios nervos e a do enxadrista Ki, que disputa o título mundial de xadrez definido por questões políticas da União Soviética. Com o romance Duas praças, Ricardo foi indicado para o prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira. Ele com os trinta anos dele, naquela época, era tratado como um garoto engraçado, talentoso e que havia caído entre os tiozões da literatura. No dia da cerimônia, vestiu jeans escuro, se olhou mais de uma vez no espelho, levou a mãe de um lado e a irmã do outro – e sim, chegou mais cedo. No hall de entrada, antes da premiação dos vencedores, acontecia o coquetel. Todos vestiam roupas de veludo e comiam canapés. Uma senhora parruda, em verde oliva e pérolas, se aproximou da mãe de Ricardo girando a tacinha. Olhou no fundo do copo, como se a espuma do seu demi-sec fosse o oráculo – “Parabéns pelo peixinho, meu bem, mas o mar aqui é para os tu-ba-rões.” Ao soar as badaladas do terceiro lugar, o peixe pequeno vingou. Depois das fotos e apertos de mão, os convidados olharam diferente para Ricardo, o Ricardo Lísias. “Prêmio literário é coisa brasileira”, riu do papelão. Um escritor não se pauta por um prêmio, assegurou. Os prêmios são importantes pelo dinheiro. E como Ricardo faz muito pesquisa para escrever, então o dinheiro ajuda sim, muito obrigado. Quando terminou de escrever O Livro dos Mandarins devia R$ 15 mil. Esse trabalho, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, conta a história de um executivo bem-sucedido que disputa uma vaga para trabalhar na China. O imaginário do mundo corporativo ganha contorno através de uma escrita fria, repetitiva, quase documental. O personagem principal, na medida em que é recompensado por suas habilidades profissionais, recebe asteriscos no próprio nome: Paulo aos poucos se torna Paul*, Pau**, Pa***, até desaparecer por trás dos distintivos. Não por acaso, os demais funcionários da empresa tem nomes parecidos: Paulo, Paula, Paul, Paulson, Pauling, Pauline. A linguagem dos mandarins veio para comprovar a eficiência do time de mímicos. Foi um trabalho duro, de quatro anos. Depois disso Ricardo deu férias de ficção organizada para todos. Somando seu tempo de escrita nesses dez anos, ele garante que apenas umas trinta manhãs se perderam. Nada mais que isso. A ex-mulher reclamava – “Casei com o Ricardo atrás de aventura, mas ele acorda todo dia na mesma hora para escrever”. Ricardo então armou uma aventura para ela: está no seu penúltimo livro, Meus três Marcelos. Depois desse, partiu para o trabalho mais recente, O céu dos Suicidas.



– Ricardo, você é tão diferente do Ricardo de O céu dos suicidas, Ricardo.


“Eu não sou o personagem”, Ricardo insistiu. O protagonista de O céu dos suicidas se chama Ricardo Lísias – sim, o mesmo nome do escritor. “Certa vez, num evento em Curitiba, um leitor se espantou ao ver que eu não era nervoso e descontrolado como esse personagem”, contou. O suicídio do melhor amigo, de nome André, também não é coincidência. O céu dos suicidas possui aspectos biográficos, não se nega, mas estão diluídos. O livro parte desse acontecimento doloroso – a perda do seu amigo André. Porém, a maneira como Ricardo viveu o trauma é diferente do que temos na literatura, e é essa maneira que importa. Quando perguntei a ele se a opção de usar o mesmo nome para os personagens era uma armadilha para o leitor, ele disse que não: “Foi a única maneira de fazer com que o texto se desenvolvesse”. “Tentei inclusive escrever do ponto de vista de um suicida, em 1ª pessoa.”, emendou. Mas não deu certo. Na ficção, Ricardo é um especialista em coleções, embora não tenha cartões-postais, canecas, maços de cigarro, nem chaveiros. Com a morte do amigo André, o colecionador passa a relembrar os acontecimentos do passado. Cada vez mais perturbado, o personagem Ricardo narra a história. A linguagem se plasma no plano da memória. É nesse espaço interior que a tropa de pequenos mímicos se gruda para imitar a ideia de embaralhamento. O desvario do personagem fica acessível para o leitor, que pode galopar na sua loucura: está cada vez mais insone, mais confuso, mais raivoso. Os campos do presente e do passado se diluem. Os acontecimentos vão sendo ligados por um colecionador que junta os fios. “Os colecionadores, quando encontram um novo objeto, mudam a lógica da coleção inteira para poder encaixá-lo”, alertou Ricardo.



Ricardo, posso tirar uma foto sua, Ricardo?


Ricardo retirou os óculos e foi até o banheiro para colocar as lentes de contato. Pedi a ele uma pose de Ricardo Lísias e ele pagou o meu café, antes que eu pudesse tirar a carteira do bolso.



Biblioteca: Galpão, fachada cor verde, 45 m2, sol da manhã, bairro Saúde. “Quando me casei, não dava para levar todos os livros pra onde eu ia mudar, então tive que alugar um espaço para eles, no galpão nos fundos de uma casa, e agora estou morarando lá.” Tem dicionários, muita ficção e tudo de filosofia contemporânea. Embora seja ordenada por autor, está uma verdadeira zona.


Personagem: Leopold Bloom, de Ulisses (James Joyce)


Leitor ideal: O leitor ideal dá chance ao livro, não pensa apenas nele mesmo. Ele não lê o livro para se mostrar mais esperto, nem para demonstrar que sabe algo que outra pessoa não saiba. Muito menos como se estivesse fazendo uma investigação policial. Ele não pode ser cínico, desconfiado, como se tivesse um inimigo na frente. O leitor ideal é criativo, não professoral.