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Acompanhamento: Amendoim japonês e whisky sem gelo


Trilha sonora: So you wanna be a rock and roll star (Patti Smith)



Dentro de alguns minutos, em 2012, André Sant’Anna vai subir no tablado do Consulado Geral do Brasil. Será frio em Frankfurt. O paletó de tweed dele vai estar gasto. O aquecedor estará quebrado e os alemães vão vestir casacos felpudos até o pescoço. O público vai estar ansioso por uma leitura única e experimental dele, O Escritor André Sant’Anna. Segundo O Crítico Que Escreve Na Folha de S. Paulo, ele é de longe a melhor coisa que poderia ter acontecido na literatura brasileira dos últimos anos. E agora, ao pisar no palco com um microfone ultramoderno na cabeça, André vai se lembrar de Patti Smith ao cantar So you wanna be a rock and roll star pela primeira vez. André Sant’Anna queria ser Patti Smith. Mas com aquele aparato ultramoderno, ele vai se sentir mais para Madonna. Então André vai tremer ao notar os crucifixos no pescoço do cônsul e da consulesa na 1ª fila. André vai se sentir inseguro. Nem a lembrança do telefonema do Raduan Nassar elogiando o seu primeiro livro vai adiantar. Nem a carta que recebeu do Dalton Trevisan dizendo em apenas uma palavra que o seu livro era ótimo, vai fazer ele parar de tremer. Mas a Mulher Do Escritor André Sant’Anna e o Pai Escritor do Escritor André Sant’Anna, vão estar orgulhosos. Assim como O Editor d’Os Cem Melhores Contos Brasileiros Do Século e O Editor de Geração 90: Os Transgressores, vão se orgulhar por terem incluído André nas suas antologias. Ao lado do cônsul e da consulesa, O Crítico De Livros Da Revista Veja vai dizer que se aquelezinho do André Sant’Anna acha que vai escandalizar a literatura, pode tirar o cavalinho da chuva.



André Sant’Anna vai começar a ler as primeiras linhas do seu livro de estreia, intitulado Amor. A Tradutora Suíça Que Fala Português vai olhar para o cônsul e a consulesa e vai fazer o sinal da cruz. Uma força mística vai nascer no corpo e na voz de André Sant’Anna: Madonna versus Patti Smith. André vai desafinar e todos vão achar o máximo os seus agudos e graves imprevisíveis: Patti Smith. O microfone ultramoderno vai pifar. André Sant’Anna vai usar a Técnica de Expansão Do Diafragma Para Situações-Limite. Seu rosto vai ficar muito vermelho. Gotas de suor vão respingar nos crucifixos: Like a virgin. Madonna. Os gringos vão enrubescer e jogar os casacos felpudos para o alto. Eles vão chamar o nome de André: Like a prayer. Madonna. André Sant’Anna agradece o público, mas no fundo ainda queria ser Patti Smith.



O que você achou desse teaser, André?


Por enquanto é isso o que temos. Só falta o slogan da campanha e um ator parecido com você. Garanto que desta vez os seus livros vão entrar em qualquer livraria. Os críticos já sabem que a sua literatura é muito mais do que sexo, palavrão e futebol, Andrézinho. Mas o pessoal tem que parar com essa mania de homenagear você nos eventos de literatura erótica. Você por acaso é pornógrafo? Francamente. Olha André, eu sei que você não costuma misturar publicidade com literatura, mas a gente vai desfazer essa imagem, ah vai!



André Sant’Anna entrou no circuito literário pelas beiradas. O seu primeiro livro precisou de um editor com pé à frente para ser publicado. Sebastião Nunes, que também é poeta e artista gráfico, lançou Amor pela Dubolso, em 1998. Até então as cartas que André recebia das editoras eram parecidas: “Seu livro tem todas as conquistas da arte contemporânea, mas dificilmente vai entrar numa livraria”. Por fim ele mesmo bancou a produção do livro. Contou com a ajuda do pai e fez a distribuição dos exemplares nas livrarias. “Mas ó, vai ser difícil, ele é experimental demais para entrar nas livrarias” – Sérgio Sant’Anna previa. Além das manifestações de Dalton Trevisan e Raduan Nassar, Antônio Houaiss, seis meses antes de morrer, reforçou: “Na minha idade eu não esperava ser surpreendido por mais nada”. A estreia de André foi sendo notada aos poucos. A crítica literária Flora Sussekind escreveu um ensaio importante sobre o autor no caderno Ideias do Jornal do Brasil. Um ano depois, o escritor Bernardo Carvalho publicou uma resenha sobre Sexo, o segundo livro do autor. “Depois dessa crítica a minha foto saiu no jornal com legenda ‘André Sant’Anna, escritor’” – contou. Por outro lado, o teor dos seus livros chegou a causar desconforto. “Um homem negro chegou a sair da sala enquanto eu fazia uma leitura de Sexo num festival de literatura” – lembrou. Mal-entendidos deste tipo se explicam pela forma com que o autor constrói a sua ficção. André faz um decalque do que se ouve nos bares, nas igrejas e nas ruas. Portanto a incapacidade linguística, o senso-comum e os preconceitos estão impressos na sua linguagem literária. “Quando eu falo de um negro, eu escrevo como um racista escreveria sobre um negro” – justificou. Por motivos parecidos, o crítico de literatura da revista Veja, Jerônimo Teixeira, classificou o terceiro livro de André como a celebração da idiotia.



Ok André, agora precisamos de um brainstorm aí!


No mesmo ano em que André nasceu, o pai anunciou um voto de silêncio. Fechou a boca e passou a escrever ininterruptamente desde aquele 1964. Ficava trancado no quarto o dia inteiro. Não tinha natal e nem ano novo para Sérgio Sant’Anna. Quando se levantava era somente para espiar a movimentação nas ruas de Belo Horizonte. A vizinhança andava barulhenta depois que o presidente João Goulart havia zarpado para o Uruguai. E quando saía era apenas para receber os pacotes pardos que deslizavam por debaixo da porta. “Os livros entravam fácil na minha casa” – André fala como se fosse um narrador de ficção científica.



E de quanto é o nosso budget?


André cresceu frequentando o quarto do pai algumas horas por dia. E como a única condição era manter o silêncio, ele ganhava uma lata de giz de cera para desenhar. Pelo menos uma vez por semana a mãe carregava o pequeno com um jornal na mão – Olha que bonito o desenho do André e o conto do papai no suplemento literário, olha! Com o tempo André escrevia as redações do colégio ao lado de Sérgio. Ao terminar, o pai canetava os erros de português. A história em si jamais era comentada. “Meu pai cobrava saber escrever bem” – André coloca as mãos em paralelo, como se uma indicasse a caixinha da forma e a outra do conteúdo. Quando chegava com uma leitura do colégio ganhava mais atenção. Então o pai colocava A mão e a luva no alto da estante e puxava best-sellers como Voando para o perigo, de Arthur Hailey. “O que um garoto de 13 anos ia querer com um folhetim para meninas do século 19? Só voltei a ler Machado de Assis 20 anos depois” – André gesticula como se tocasse bateria com as mãos.



E qual é o seu target, André?


“Nunca quis ser escritor na infância nem na adolescência” – André tem uma caixa torácica do tamanho de uma jukebox e sua voz sai cadenciada. Só ouviu a voz do pai alguns anos depois, quando se mudaram para o Rio de Janeiro. O processo de abertura foi lento, gradual e seguro. Com 14 anos o pai virou um confidente. “Passei a ser o primeiro leitor do meu pai” – André ainda é o primeiro a ler os livros que Sérgio Sant’Anna escreve. Pelos domingos iam no Maracanã e André voltava para assistir o quadro Abertura, na TV Tupi. Glauber Rocha colocava o microfone na boca do povo, escrachava a Embrafilmes e se candidatava a Presidente da República. – Ô pai, o que ia ser desse sujeito descabelado se tivesse que ficar em silêncio?



Agora me dá o seu feed back, vai!


“Passei a gostar da literatura do meu pai” – André usa a Técnica De Contração Do Diafragma Para Momentos de Suspense, que consiste numa longa pausa: “Mas nunca quis segui-lo” – concluiu. Ele simpatizava mais com o teatro e a música. Ia todas as tardes no Teatro João Caetano para ver os ensaios da montagem de Macunaíma. Não fosse Antunes Filho desiludir o garoto, teria sido ator: “Ele disse que ator era só um marionete”. Então passou a insistir na música: “Comecei a estudar porque gostava de Jazz” – André fala jás, e não djéis, como se o seu português fosse antropofágico. Inspirado por Arrigo Barnabé, que tocava na mesma época em São Paulo, André montou a banda Tao e Qual. “Foi a primeira vez que escrevi depois das redações do colégio” – André não tem trauma das canetadas do pai. Passou a criar as letras das músicas, as performances e os esquetes para o show. “No fundo acho que tudo é a mesma coisa: a música, o teatro, a literatura”.



André, agora preciso que você responda essa pesquisa de comportamento aqui, ó.


André começou a trabalhar numa agência de publicidade como estagiário. Depois de gastar o primeiro salário com Feliz Ano Novo do Rubem Fonseca e uma entrada para o filme Idade da Terra do Glauber Rocha, levou um chute da namorada. Foi então que decidiu fazer o primeiro voto de silêncio. Roubava horas do expediente para escrever no seu diário. Só foi abrir a boca quando ouviu um nome: não, não era Patti Smith. Mas sim Pati Woll. Patricia trabalhava no mesmo escritório. E por mais que exalasse um perfume de protetor solar, tinha a pele sempre vermelha. Ela estava prestes a dar um tempo do sol do Rio de Janeiro e voltar para a Alemanha. André prometeu compor uma canção em alemão se ela ficasse. Ou iria junto para Berlim.



Acho que já temos uma boa amostragem aqui, André!


Voltaram para o Rio de Janeiro depois de um ano e meio. Em 1992, Collor já estonteava o Palácio do Planalto com gel, ternos bem cortados e um novo plano econômico. Os cruzeiros haviam deixado os cruzados novos para trás. Os economistas deram o prefixo hiper para a nova inflação. Então o casal achou melhor ir para São Paulo. Se não houvesse dinheiro por lá, pelo menos haveria mais sombra para Pati. Começaram trabalhando juntos numa pequena agência. Ele como redator, ela como diretora de arte. Pati não ia para casa até fechar a campanha do dia. Sem Arpoador, André passou a esperá-la na sala ao lado. “Se não trabalhasse em agência de publicidade nunca teria sido escritor”.



– André, temos um case de sucesso, André!


“Travo uma guerra contra o escrever bem” – André mantém a literatura tão afastada da publicidade que Don Draper jamais o contrataria. Apesar disso, ele teve sua fase Mad Men. Chegou a trabalhar em campanhas políticas com Duda Mendonça. Ia de jet set para Brasília toda semana: “Tinha whisky e amendoim de graça”. Mas na literatura nunca seguiu as demandas do mercado. A crítica esperava por escritores parecidos à geração anterior. Sérgio Sant’Anna, João Ubaldo Ribeiro e Ignacio de Loyola Brandão eram tidos como os últimos escritores contemporâneos. Não era por menos que os índices de popularidade para uma renovação literária estavam em baixa. No entanto, quando a antologia Geração 90: Os Transgressores apresentou 17 novos nomes para a literatura, André tinha o seu conceito definido: “Na publicidade escrevo como o cliente quer, mas na literatura não”.



– André, tem certeza que isso é mesmo um jingle, André?


André tirou uma caneta laser do bolso e se posicionou em frente a sua primeira peça. Com um pontinho vermelho indicou a caixinha de música sobre a mesa: “O primeiro texto era emoção em estado bruto”. Para escrever Amor, André transformou o antigo diário em música. “Imagine que eu seja o leitor dando corda”. Então o cilindro gira sobre o próprio eixo e as palavras encostam no tecladinho que está ao lado. A composição de André não tem narrador. Por isso o som da primeira linha soa estridente: “O Cristo, O GOVERNO E AS BOCETAS DESSE MUNDO”. E na medida em que o cilindro gira, uma mesma palavra ganha novas modulações. O encanto desta belezinha está em tirar sons desconhecidos das palavras. As repetições podem parecer inocentes, mas criam estranhamentos como este: “Todas aquelas pessoas, lá naquelas festas, selecionando aquelas pessoas daquelas pessoas”.



– Uau, André, uma maquete!


Uma maquete hiper-realista de São Paulo – assim é Sexo, o segundo livro do autor. Nela o leitor pode ver um shopping center, o Maksoud Plaza, a IBM e motéis baratos como o Taj Mahal. Seus personagens são estereótipos paulistanos. Todos feitos de plástico e made in China. “A serialidade dos chineses é impecável”. André apontou a luzinha para cada um deles: O Executivo De Óculos Ray-Ban, a Gorda com Cheiro de Perfume Avon, a Secretaria Loura Bronzeada Pelo Sol, O Negro Que Fedia. O narrador seleciona mode on e o boneco acende. Eles são programados por uma lógica social. Os de classe C- raramente cruzam com a classe A. O Executivo De Óculos Ray-Ban come sashimis com o Executivo De Gravata Vinho Com Listras Diagonais Alaranjadas. Ambos gostariam de fazer sexo com a Secretaria Loura, Bronzeada Pelo Sol. Já o Negro Que Fedia, só poderia ter uma loura dessas no poster do seu barraco. Todos eles vivem histórias banais. Suas ações são previsíveis e os diálogos vazios. E por mais que vivam em realidades segmentadas, possuem algo em comum. “Basta acionar o mode sex” – indicou o botão.



Então qual é o seu grande catch, André?


André parece orgulhoso do seu collage com mais de 400 páginas. O paraíso é bem bacana monta a biografia do craque Mané. O figura Manoel dos Anjos deixa Ubatuba aos 17 para jogar no clube Hertha Berlin, na Alemanha. E para compor as falas do personagem, André recortou e colou clichês da burrice: “Meu personagem fala pobrema”. O Mané era semianalfabeto e não ia nas aulas de alemão. Cada um dos personagem tem uma linguagem a seu modo. Imigrantes, alemães, jogadores de futebol. É o mosaico de vozes que conta a história: “Eu achava que o Mané ia ficar famoso, rico, que nem esses jogador de futebol que dá tudo pra mãe”. Mas o protagonista se converte ao islamismo, deslumbrado com as 72 virgens que a tradição muçulmana promete e faz um atentado terrorista em campo. Os delírios de Mané no paraíso são recriados por uma longa sequência de colagens: “É setenta e duas. E elas vêm vindo, tudo limpinhas, muito bonitas”. Enquanto isso, outros trechos mostram ao leitor o que está acontecendo de verdade: “E se ele acorda e vê que tá desse jeito, todo fodido, sem pau?”



– Agora só falta o nosso slogan, André!


André, nossa campanha vai ser um sucesso. Podemos fazer o lançamento quando você escrever o novo livro. Fiz uma pesquisa de comportamento que pode te ajudar, ó. Ela afirma que os leitores de hoje se interessam por histórias surpreendentes com personagens da vida real. Presidentes da República, jogadores de futebol, escritores, modelos-atrizes. Todos podem ser personagens. Mas o livro não pode ser muito grande, claro. Quinze contos no máximo. E não me olhe assim, André. Você quer ou não quer mudar essa imagem?


– E a nossa grande frase André, como é afinal?



Biblioteca: Estilo maquete, altura total de dois metros, estrutura de foam board com fechamento de acrílico. No andar mais alto está a seção de Sérgio Sant’anna, com todos os livros do pai. Os andares abaixo são ocupados com Rubem Fonseca, Nelson Rodrigues, José Agrippino e Glauber Rocha.


Leitor Ideal: Aquele que continua sendo um adolescente.


Personagem: Kilgore Trout, de Café da manhã dos campeões (Kurt Vonnegut Jr)